uma das leis da economia brasileira, talvez de todas as economias, é citada por gustavo franco n’As Leis Secretas Da Economia, de 2012, onde o autor tenta descobrir se a nossa e as outras economias estão sujeitas a alguma lei universal. a resposta é sim, e as leis são muitas, muitas dezenas. uma delas, a de número 23, diz que… a criação ou mudança de instituições destinadas a proteger o interesse geral, em detrimento de particulares, será sempre procrastinada até que seja inevitável.

o teorema da história lenta, como o chama gustavo franco, tem um corolário, pelo menos: via de regra, quando é inevitável, já é caro demais; ou inútil; ou ambos. capaz da lei não ser só para a economia, mas para a humanidade, como um todo, hoje indissociável da economia.

quer ver um exemplo que toca as cidades, diretamente? o aumento do nível do mar relacionado às mudanças climáticas é uma ameaça iminente à infraestrutura da internet. é a conclusão de um estudo liderado por ramakrishnan durairajan, que poderia ser só mais um a mostrar o risco que correm as zonas costeiras de cidades ou estados inteiros em caso de avanço do mar sobre a terra [veja aqui], mas não. além dos estudos baseados em dados de todos os tipos e cenários de possíveis futuros, eventos climáticos como tempestades de neve que derrete de repente [como a da imagem em destaque deste post] começam a demonstrar claramente o que vai acontecer no futuro… com mais água à porta de quem está perto do mar [e às vezes, nem tanto].

o estudo de durairajan trata do futuro próximo, 2030, e não daqui a cem anos, quando a gente se entrega à procrastinação, ao deixa-pra-lá-que-não-é-conosco. segundo o estudo, partes críticas da infraestrutura de internet em muitas cidades dos EUA terão problemas radicais já no curto prazo, ali naquele 2030, quase daqui a dez anos.

o estudo Lights Out: Climate Change Risk to Internet Infrastructure assume um aumento do nível do mar de 30cm em 2030 [mar+30], mais 30cm a cada 15 anos, chegando a 1.8m em 2100 [dentro das expectativas razoáveis para aumento do nível do mar no século] e mostra que, já em 2030, 771 POPs [pontos de presença], 235 data centers [centros de processamento de dados], 53 landing stations [estações de ancoragem de cabos submarinos] e 42 IXPs [pontos de troca de tráfego de rede] serão afetados pelo aumento do nível médio do mar de 30cm, só nos EUA.

à esquerda da imagem, está new york e suas conexões nacionais de fibra ótica em verde. note que há [pontos de ancoragem de] cabos debaixo d’água com mar+30. claro que há cabos que podem [e deve] estar sob a água em muitos caos, mas não todo cabo e nenhuma estação onde ele chega. à direita da imagem, está miami, hub de conexões com o mundo e com a américa latina em particular; quase todas as landing stations de miami estarão afogadas -e serão inúteis- em mar+30.

pena que o estudo é só sobre os EUA. mais ainda que o brasil nunca tem dados pra um estudo destes. muito pior: mesmo nos EUA, onde o estudo mostra que o caos está logo ali… a política do imbecil que atualmente governa o país, e das quadrilhas que o financiam, é queimar cada vez mais combustíveis fósseis, voltando ao nível da primeira revolução industrial, se for possível, como se isso fosse garantir o futuro do trabalho de carvoeiro… o que é um desastre humanitário e ambiental.

no brasil, santos está sob ameaça do avanço do mar, hoje. santos, não por acaso, tem landing stations de múltiplos backbones da internet global. e centenas de milhões terão que ser gastos para evitar prejuízos bilionários e comprometimento de infraestruturas e investimentos vitais para a cidade. para resistir a mar+80 em 2100 [o que é muito otimista, poderá ser mar+180…], santos tem que  recuperar mangues e fazer muito mais para chegar ao ponto em que poderia pensar num novo nível de sustentabilidade ambiental… se todas as outras cidades, estados e países colaborarem. santos está certa… tem que agir; ninguém mora em países ou estados, mas em cidades. temos que começar no local, para atingir o global. senão nada, de fato, acontece.

há décadas que especialistas alertam para o papel dos mangues, no mundo inteiro e em todos os sentidos, como sustentáculo para áreas costeiras. há décadas que as prefeituras costeiras fazem ouvidos de mercador aos alertas, cada vez mais precisos e focados, cada vez mais sustentados por dados, por evidências absolutamente impossíveis de se esconder embaixo do tapete.

e há décadas vale um teorema da história lenta para as cidades: a criação de políticas e instituições destinadas a recuperar e preservar a sustentabilidade das cidades, no interesse de todos e em detrimento de particulares interessados apenas no retorno imediato de seus investimentos, será sempre procrastinada até que seja inevitável, quando já será caro demais, e quase certamente inútil, agir. 

nas cidades costeiras de todo o mundo, dominadas pela especulação sem fim, que imobiliza os agentes públicos com suas promessas e ofertas de curto prazo e seu profundo desprezo pelas consequências de longo prazo, a internet vai se afogar. mas não só… iremos todos, juntos, se nada mudar no curto prazo. 2030 não é daqui a cem anos. só faltam dez, é logo ali..

KATRINA...