A Grécia Antiga era uma federação de centenas de cidades-estado. Ninguém nunca ouviu falar da vasta maioria delas, mas quase todos sabem de Atenas, Esparta, Rodes, Corinto e Tebas. A vasta maioria das pequenas poleis gregas desapareceu, por múltiplas razões. Entrepostos e centros logísticos ultrapassados por melhores conexões, postos militares irrelevantes em função de novas tecnologias, localidades eliminadas por exaustão de recursos naturais, incompetência de seus líderes ou pura e simples inexistência deles, e por aí vai.

Nenhuma delas, claro, desapareceu por uma só razão, mas por um número razoável delas, como foi o caso de Esparta. Cidades [empresas, e países] deixam de existir [ou se tornam irrelevantes] porque deixam de ser competitivas no seu contexto espaço-temporal.

Num mundo em rede, onde a economia é de conhecimento, o trabalho é performance simbólica e está cada vez mais situado no espaço virtual, são as cidades que importam, e não os estados ou países. Até porque nós moramos em cidades. Mais radical: nós moramos em bairros, em lugares muito pequenos ao nosso redor.  A rede destas hiperlocalidades, cada qual um pequeno-grande hub ao qual estamos associados, forma a cidade contemporânea. Globalmente, em mercados de conhecimento, as cidades competem entre si, e as alocações dos recursos fluidos, nas mãos da iniciativa privada, se dá ao redor do globo, onde os investimentos forem mais competitivos. É aqui onde começa nossa história.

Para cada mercado, há um conjunto de lugares que, ao mesmo tempo, é importante e relevante. em cinema, por exemplo: quantas cidades são ao mesmo tempo importantes para o cinema [se faz, lá, algo de qualidade, quando a produção é avaliada num contexto global] e relevantes para o cinema [a economia do cinema, no lugar, é sustentável e, ao mesmo tempo, é significativa no contexto global]? A lista tem London, Tokyo, Mumbai, Hong Hong, Los Angeles, Berlin, New York, Toronto, Paris… lugares onde a economia do entretenimento audiovisual gira bilhões de dólares por ano.

Quase nenhuma das grandes cidades do cinema é importante e relevante só em cinema. London é um dos maiores centros financeiros, de conhecimento e logística do planeta. E quase nenhuma outra cidade, grande em um setor, é gigante só naquilo. Mumbai é a capital indiana do cinema e ao mesmo tempo um centro financeiro e de software de classe global. Mumbai está no 52º lugar do índice de cidades globais da ATKEARNEY, em 2018.

Os cinco primeiros lugares da lista são ocupados por cidades que estão entre as dez mais do audiovisual: New York, London, Paris, Tokyo e Hong Kong. O que não quer dizer, nem de perto, que o cinema leva as cidades para o topo das listas de cidades mais competitivas do mundo mas que, lá no topo, há uma economia que demanda, sustenta, incentiva e financia uma indústria cinematográfica de classe global e impacto mundial.

Seis cidades brasileiras estão entre as 15 da América Latina que fazem parte do estudo, onde as cidades da Ásia, especialmente da China, entram na classificação de forma impressionante. as brasileiras, infelizmente, estão caindo em relação ao seu ponto de entrada na lista, de 2012 pra 2018. A exceção é São Paulo, que subiu duas posições desde 2012 mas não conseguiu entrar nas TOP25, onde a última posição é de Buenos Aires, única latino-americana no topo do mundo… e olhe lá.

Essa é só mais uma lista de cidades? Sim. Há dezenas dessas listas? Sim. Devemos levar só a lista [na verdade, seus critérios e forma de avaliação] em conta? Não. Dá pra descartar essa lista? Não. Este índice mede um conjunto de fatores que faz sentido para avaliar cidades e compara 135 das cidades que competem globalmente como hubs de desenvolvimento, cultura, conhecimento, educação, sustentabilidade, saúde… tudo o que se espera de lugares onde quem estuda, trabalha e empreende pode ter mais chances de se tornar mais competitivo e onde quem vive quer e pode encontrar seu equilíbrio.

Interessante ver como o estudo codifica a máquina de crescimento da China, na imagem abaixo.

No fundo, é simples, já entendido, inclusive aqui. E não tem uma ordem, um primeiro, segundo ou terceiro lugar, porque é uma política de tudo-ao-mesmo-tempo-agora: um ambiente de negócios que atrai talento combinado a talento que alimenta desenvolvimento de negócios; um conjunto de ações de governo que fortalecem o bem-estar e [o desenvolvimento, atração e retenção de] capital humano e  políticas e programas que habilitam um ambiente de negócios positivo [indutor, atrativo, estável, seguro] para empreendedores locais e globais.

Isso é tudo o que a política brasileira para cidades não consegue produzir. E São Paulo “escapa” pelas suas redes de educação e capital humano, de logística, seu tamanho em relação ao resto do Brasil; só na grande São Paulo estão 10% da população do país. Mas, mesmo para a cidade de São Paulo, ou clusters de competências inseridos nela, é muito difícil competir globalmente quando há um Brasil inteiro, em particular a política inteira do Brasil, a puxar todos pra trás.

Enquanto a política brasileira pensar e agir mais para a própria política [e politicagem] do que para um país que tem potencial mas não consegue competir sem os insumos políticos que não tem… seremos sempre muito menos do que poderíamos ser. sempre há quem diga que é melhor deixar a política -e o Estado, com “e” maiúsculo- pra lá e agir. não é, porque não dá. O Estado, no Brasil, está em tudo, inclusive e principalmente nas complicações que tornam o país o que ele é.

Quando o Estado funciona e ajuda, ele é muito bom e muito bem vindo, e principalmente nas cidades. mas quando o Estado não consegue fazer sua parte e atrapalha, ele atrapalha, mesmo. ao ponto de inviabilizar as cidades. e, como o país não é nada mais do que uma rede de cidades… inviabiliza o país inteiro.

Na imagem de destaque, lá em cima, uma foto da milenar cidade chinesa de Changsha. Lembra o prédio de 57 andares que foi construído em 19 dias? Foi lá mesmo. Changsha acabou de entrar na lista da Atkearney, no 124º lugar. E eles não estão de brincadeira, e não é só pra fabricar coisas pra gente consumir no Ocidente. Na imagem abaixo, uma ponte pedestre sobre o Lago Meixi, na forma de um nó decorativo…

…e, na última imagem, o Changsha Meixihu Culture & Arts Centre. Cidades não são pra trabalhar, apenas, mas para viver, principalmente. mesmo -ou por causa- da correria deles, os chineses sabem que, para competir globalmente, suas cidades têm que ser lugares sustentáveis, onde se ganha a vida para viver. a ponte e o centro cultural foram feitas nos últimos 5 anos, enquanto quase todas as cidades brasileiras, com o país imerso na sua maior crise de sempre, andavam pelo menos uma década para um passado que a gente pensava que era… passado.