Se você mora perto do Mercado da Encruzilhada, provavelmente conhece o tradicional restaurante O Bragantino. Mas por que um dos portugueses mais tradicionais da Zona Norte do Recife tem como slogan “a casa de um lavrador”?

Foi com essa dúvida que, depois de almoçar um prato feito de cupim, comecei a conversar com o dono do restaurante. Manoel José Alves veio de Portugal em 1965, chegou ao Brasil em plena Ditadura Militar e começou sua vida desse lado do continente atuando como mascate no bairro do Brás, em São Paulo. Mas foi também vendedor de presunto e queijo, linguiceiro e kombeiro.

Bragantino: uma casa portuguesa, com cerveja!

Natural de Chacim, uma vila próxima a Trás dos Montes, Seu Manoel é filho de um agricultor. Conta que, até seus 25 anos, foi realmente lavrador. Plantou, colheu e trabalhou em muitas plantações de feijão, trigo, batata, pimentão e azeitona.

Ele veio da Europa já casado com Eugênia Nunes. Como ela já tinha parentes no Recife, acabou vindo trabalhar aqui e passou por restaurantes e lanchonetes até se estabelecer na Padaria Quintela, onde passou 17 anos como funcionário.

Até tem um vinho Casal Garcia no Bragantino, mas ambiente pede mesmo a cerveja (Foto: Eduardo Amorim/PorAqui)

Recife precisava de um lugar para quem gosta de cerveja como o Laborada

Mercado

Em 1991, após ser demitido da padaria, Manoel conseguiu o ponto no Mercado da Encruzilhada. “No começo, queria mais até ser uma espécie de lanchonete. Mas não tinha público e comecei a fazer almoço”, conta, garantindo que os primeiros anos foram extremamente difíceis.

Aliás, nada veio fácil na vida de Seu Manoel. Na Encruzilhada, só começou a ganhar certa fama após a reforma que criou a Praça da Alimentação, durante a gestão de Roberto Magalhães. Ele fala desse passado, de ter sido lavrador e as lágrimas no seu rosto explicam o sentido da frase na placa.

Seu Manoel é um homem que viveu para o trabalho e construiu seu pequeno império do bolinho de bacalhau, da cerveja gelada, boa conversa, arroz de polvo e até um pastel de nata para adoçar a vida de quem passa pelo Mercado da Encruzilhada.

Seu Manoel viu mudar o perfil dos moradores do entorno do mercado (Foto: Bernardo Soares/JCImagem)

Em relação às mudanças que estão acontecendo no mercado, Seu Manoel sugere apenas que deveria ter outros tipos de atividades e principalmente não se esquecer o artesanato. “O turista vem aqui e não tem o que ele comprar.”

O empresário costuma voltar todo ano para fazer turismo em Portugal. Mas não tem vontade de se aposentar e vai ficando pelo Brasil, onde “o cara pode viver até vendendo bananas nas ruas”. Aqui, teve três filhas: Adelaide, Flavia e Monica Alves.

O Bragantino
Mercado da Encruzilhada, Box 138/140
Terça a sábado, das 6h às 18h. Domingo, das 6h às 12h