Fincado no coração da Encruzilhada, o mercado público do bairro já é parte inseparável do cotidiano do recifense. Em cada esquina uma lasca de queijo de coalho, uma colher no doce do mel, pimentas, cominho, confeitos, macaxeira “molinha” e a simpatia dos vendedores. Tem cerveja e sarapatel, rala-bucho e amendoim. E por isso tudo isso, vive no coração dos moradores do bairro.

O que, talvez, muita gente não saiba, é que o Mercado da Encruzilhada tem as suas contradições. Uma dualidade que aparece nas rodas de conversas, e que fica no meio das entrelinhas, de quem frequenta o lugar na parte voltada para a Rua Amaro Coutinho e aqueles que preferem o local próximo à Rua Carlos Borromeu.

LEIA TAMBÉM

Pequena e prática lista de serviços na Encruzilhada

Reciclobikes: um ateliê de bikes urbanas em pleno mercado

Foto: Júlio Rebelo

Manuel José Alves, dono do restaurante Bragantino, chegou ao Brasil em 1965, e, hoje, é preciso chegar cedo aos sábados pra poder encontrar lugar pra sentar no recinto mais lusitano do bairro. “Antigamente, há exatos 25 anos atrás, o Mercado não era como é hoje. Ele tinha má fama, de ser um lugar perigoso e precário, o que afastava as pessoas. Nos últimos anos é que o cenário mudou, depois que o local passou por reformas”, explica seu Manuel.

Ele também comenta que, agora, a parte onde ele trabalha passou a ser frequentada por pessoas elitizadas. “Tenho clientes fazendeiros, advogados, médicos e políticos. Um grupo de dez a quinze fixos, que não abrem mão de uma boa conversa e excelente comida.” Seu Manuel acredita que o Mercado da Encruzilhada tem sorte de ser privilegiado pela localização. “A Encruzilhada é rodeada de boa vizinhança, como Aflitos, Espinheiro e Rosarinho. São bairros onde moram pessoas com bom poder aquisitivo.”

PERSONAGENS DO MERCADO

Mesmo sem ler, Bigode dedica sua vida à literatura

Perdição: a história do Galego do Peixe da Encruzilhada

Mas nem tudo são flores. O português reclama que ainda falta espaço e que os banheiros não são adequados e ficam longe do estabelecimento. “Essas condições não favorecem as mulheres, e nem a mim, que perco clientela por causa destes obstáculos”.
Do outro lado do mercado, na parte que dá acesso à Rua Carlos Borromeu, é onde se encontra o pedaço do recinto ainda mais popular. Por lá, é fácil ver operários da construção civil almoçando, junto com outros empregados. Gente falando alto, fumaça e cachaça nos balcões.

Foto: Júlio Rebelo

Jerusa Ramos Xavier, 53 anos, proprietária do Bar Seu Lau, funcionando desde 1984, explica que herdou a propriedade do pai e demonstra insatisfação ante a diferença existente entre os lados do mercado. “Lá na frente, onde funciona o Bragatino, é tudo mais limpo e organizado. A gente aqui atrás sofre com a precariedade e sujeira. Tem muito maloqueiro, gente gritando palavrões e sem camisa”, afirma Jerusa. “Pra você ter uma ideia, faz 30 anos que trabalho aqui e muita gente ainda não conhece o meu bar”, comenta.

Apesar dos problemas, ela diz que antes era pior. “Havia muito roubo dentro do mercado e muitos meninos cheirando cola. Isso afastava muitas pessoas do meu bar. Agora, melhorou um pouco. O lugar está mais limpo. Mas a segurança ainda é deficiente”. Ela ainda conta que paga segurança privada e que sente falta de maior rigor nas fiscalizações.

Foto: Júlio Rebelo

José Cláudio, também com 53 anos, auxiliar administrativo, é cliente do bar de Jerusa, e diz que prefere o ambiente do Seu Lau. “A comida é boa e mais em conta do que lá (se referindo ao lado onde fica O Bragantino).”

Ele também afirma que o ambiente acolhedor é um atrativo a mais. “Eu moro no Arruda, mas quando tem algo pra fazer na Encruzilhada, pagar alguma conta, por exemplo, sempre venho comer aqui, tomar uma cervejinha e fazer amizades”.
Independente do local que se escolha ficar, o mercado tem sempre um cantinho novo pra se descobrir. O Governo Municipal está realizando uma reforma, em breve o PorAqui publica reportagem sobre as mudanças que estão acontecendo no mercado, que foi inaugurado nos anos 20 do século passado.