Um lugar repleto de história, que resiste à ação do tempo e preserva a arquitetura de suas casas desde sua fundação, na distante década de 40 do século passado. A Vila do Moinho, no bairro da Encruzilhada, cujo nome é uma referência aos seus primeiros moradores, que trabalhavam no Moinho Recife, tem acesso pela Rua Domingos Bastos – uma homenagem ao proprietário da Firma Just Bastos & Cia, um dos fundadores do Moinho – e é sonho de moradia de muita gente que passou por lá para visitar amigos ou parentes.

Inaugurada, com 66 casas, o local também possui uma pequena praça, com brinquedos para as crianças, e é comum presenciar seus moradores batendo papo nas calçadas. Na entrada da vila, é possível ver uma placa informando que a rua é sem saída – além da Domingos Bastos, ainda tem a Rua João Ezequiel e a Rua Santana de Castro, o que conserva um ar de tranquilidade no seu interior.

Foto: Júlio Rebelo

Encostada no portão de entrada da sua residência, herdada do seu pai, Myrna Bezerra conta que mora há 49 anos no local. “Eu ‘nasci’ aqui. Meu pai comprou essa casa de um antigo trabalhador do Moinho Recife. Ele dizia que esse lugar era um tesouro por conta da paz que emana de suas casinhas e de suas ruas calmas. Tenho certeza de que ele estava certo”, revela Myrna, cujo pai faleceu recentemente.

A marca do tempo é vista pela mudança dos moradores. Os antigos repassaram os imóveis aos seus filhos, e assim, a história foi mantida no local. “Minha mãe tem 87 anos, e herdou a casa do meu avô, que era trabalhador do moinho”, explica Everaldo Gomes, de 57 anos, que trabalha com contabilidade.

Foto: Júlio Rebelo

Ele e Myrna formam um casal, e se conheceram ainda crianças nas ruas locais. O hábito de proximidade estreita os laços entre as pessoas do lugar, onde todo mundo acaba se conhecendo. Talvez isso explique o ar de cumplicidade que permeia o interior da vila, e é difícil circular por lá sem se sentir invasivo.

Everaldo diz que, recentemente, uma conhecida empresa imobiliária da cidade sondou os moradores, com o intuito de construir prédios no local. “De tempos em tempos aparece por aqui pessoas ligadas às imobiliárias, com ofertas na mão, tentando comprar nossas casas. Mas ninguém tem a intenção de vender seus imóveis, justamente porque temos um estilo de vida diferente”, afirma.

Além das conversas nas calçadas e dos meninos brincando no parquinho, a Vila do Moinho também confraterniza na rua as datas festivas, como São João e Ano Novo. “Até pouco tempo atrás tínhamos uma troça carnavalesca que desfilava pelo bairro. Era a Troça Carnavalesca Mista Couro do Gato de Pai. Mas com a crise a troça deixou de sair”, recorda Everaldo.

Foto: Júlio Rebelo

Ele também conta que é difícil acontecer crimes na localidade, mas que mesmo assim os moradores pagam a uma empresa privada para reforçar a segurança no lugar. “Inclusive, já aconteceu um ‘mini plebiscito’ que propunha fechar com uma guarita a entrada da vila. Mas como a ideia não foi aceita por unanimidade, a entrada permanece aberta”, explica Everaldo.

Para a sorte de todos nós, está livre a passagem que conduz ao interior da Vila do Moinho. E antes que isso mude, vale a pena conferir um pouco do nosso passado dando um “pulinho” por lá. Quem tiver curiosidade, é só seguir pela Estrada de Belém, sentido Olinda, e no primeiro acesso entrar à direita, logo após o Cartório da Encruzilhada.