Olha  a vassoura de piaçava, olha o picolé diretamente das sorveterias de Rio Doce. Certamente você já deve ter escutado alguma dessas frases, ditas por personagens que povoam nosso bairro.

Essas pessoas conferem uma identidade ao nosso território fincado na beira do rio, mesmo que nunca tenhamos trocado uma palavra, é como se os conhecêssemos desde sempre, são tão familiares no dia a dia.

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O cotidiano é o que tece a vida, as cenas percebidas pelas retinas, os sons da natureza que invadem os tímpanos, os momentos vividos e as pessoas. Ao escutar essas frases ou cruzar com esses personagens na rua, o bairro ganha ainda mais ar de casa.

Quem serão eles/as, de onde vem, há quanto tempo devem passar por aqui? São perguntas que me faço e quantas histórias devem ter para contar, caminham de sol a sol pelas ruas do bairro. Lembro-me também de uma senhora dizendo olha a cocada e de um velho que toca a sineta para avisar que vai chegando o carro do picolé.

Eu falo aqui de reconhecimento, ver e ouvir essas pessoas é saber que estou nas Graças, que pertenço a essa comunidade e cada um de nós necessita dessa pertença para ser no mundo. Essas aparentes trivialidades poetizam o instante e lançam luz no cotidiano.

O senhor das sorveterias de Rio Doce é um artista nato, imposta a voz e dá vários recados sobre viver a vida, tem a sabedoria dos caminhantes, daqueles que percorreram muitas ruas de paralelepípedos, antes de transitarem pelas de asfalto. Quando ele passa, corro para a janela para tentar capturar sua fala que se espalha no ar.

E você, quais os personagens que passam por sua rua? É tempo de estar atento a nós mesmos, em nossa casa, nossa cidade,  em nosso país, sobretudo. Sigamos.

Raiza Figuerêdo chegou ao mundo no verão de 1989, em Salgueiro, Sertão de Pernambuco. Nas curvas da estrada, foi descobrindo seus vários eus: escritora, psicóloga, cientista, professora e ainda outros. Tem buscado treinar o olhar para enxergar as pequenas grandes coisas do cotidiano, que coloca no ar em seu site e no canal que mantém no PorAqui, ‘Enquanto Caminho’. Mora nas Graças.

 

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