O tempo é  conselheiro nas boas horas ou  algoz nos momentos de decisão, o tempo passa cada vez que o sol aparece ou que a lua muda de fase, surge a cada fruta madura da estação, no crescer dos fios de cabelo, das unhas e pelos, o tempo sentido no corpo e nos poros.

O tempo é um senhor de cabelos brancos, como o arquétipo junguiano do velho sábio, que tem profundo conhecimento dos mistérios do mundo.  Tem coisas que só o tempo cura, como as  dores da vida, quem não as tem? As lembranças de cada um é o tempo fazendo memória, mas nada melhor que viver o tempo presente, como esse minuto no qual escrevo esse texto e ouço rádio na varanda, o momento atual é a  única certeza que temos.

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O tempo contado em relógios, cronômetros e uma ilusão de que há controle sobre ele. O tempo nas rotinas, acordar, trabalhar, voltar para casa, descansar, dormir. O tempo nas horas livres e dias de folga, precioso, o que fazer com ele?

O tempo nas pessoas e coisas. Nosso bairro é cheio de tempo na história da cidade e tem personagens que habitam as ruas que tem muitas coisas para contar, casas velhas, algumas abandonadas, da calçada e dos portões avista-se as paredes com a tinta desbotada, algumas desmoronando, os caibros e ripas com cupim e as poucas telhas que ainda estão no telhado com vista para o céu.

As ruínas, o silêncio e o mistério colorem a paisagem onde estão, musgos e pequenas plantas brotaram nas rachaduras das fachadas soprando vida. Um dia abrigaram muitas pessoas e quantas coisas devem ter presenciado, ahh se as paredes falassem o que nos diriam? Socorro! Venham nos salvar, queremos continuar existindo.

Texto dedicado à memória das casas antigas e um apelo para que possamos lutar por suas vidas. A história de um lugar também se escreve a partir das habitações que abriga. Crônica escrita  poucas horas antes do incêndio do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Raiza Figuerêdo chegou ao mundo no verão de 1989, em Salgueiro, Sertão de Pernambuco. Nas curvas da estrada, foi descobrindo seus vários eus: escritora, psicóloga, cientista, professora e ainda outros. Tem buscado treinar o olhar para enxergar as pequenas grandes coisas do cotidiano, que coloca no ar em seu site e no canal que mantém no PorAqui, ‘Enquanto Caminho’. Mora nas Graças.

 

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