A passagem da peça O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu por Garanhuns foi marcada por muitas tensões e embates. O monólogo, que traz a atriz trans Renata Carvalho no papel de Jesus, teve de enfrentar, de última hora, nesta sexta (27), a tentativa de mais um revés. Dessa vez, judicial.

Uma liminar, expedida pelo desembargador relator Roberto da Silva Maia, do Tribunal de Justiça de Pernambuco – TJPE, determinava que a apresentação não deveria mais ser viabilizada dentro da programação do FIG 2018. A liminar atendia a um mandado de segurança impetrado pela Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região.

Uma primeira sessão já havia sido realizada, às 17h. A segunda, às 21h, foi marcada por uma confusão que teve início com a chegada de oficiais de justiça. A PM-PE e a Rocam cercaram o local da apresentação, impedindo que pessoas entrassem ou saíssem do espaço. Mais cedo, antes disso, uma bomba foi jogada na casa onde foi realizada a peça.

No entanto, a própria Renata Carvalho e a produção da peça enfretaram o bloqueio e abriram as portas do local. O público, por sua vez, entrou de uma só vez e reagiu à tentativa de proibição da apresentação com palavras de ordem contra o Governo. “Não vai ter censura!”, bradavam, enquanto começaram a tomar o local. Em torno de 300 pessoas estavam presentes.

Representantes da Secretaria de Cultura de Pernambuco e da Fundarpe começaram a retirar toda a estrutura montada no local, alegando que estavam cumprindo uma decisão judicial. Cadeiras, aparelhos de som e luz foram sendo desmontados enquanto público e produção da peça se manifestavam contra.

O clima era de tensão total, que aumentou ainda mais quando, sem qualquer estrutura, Renata Carvalho ainda tentava se apresentar, no que foi interrompida pelo barulho causado pelos funcionários da Fundarpe durante o desmonte, o que soou como um boicote à peça.

Cerca de 300 pessoas acompanharam a segunda sessão da peça (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Em sinal de enfrentamento, a atriz reagiu de forma mais firme e solicitou que todos os representantes do Governo deixassem o local, um imóvel particular que foi alugado pela produção da peça para a apresentação. A decisão judicial não tinha efeito para a realização da peça em local privado. Todos os funcionários da Fundarpe se retiraram, sob vaias do público.

E Jesus falou

Após os ânimos restabelecidos com a retirada dos funcionários da Secult-PE e Fundarpe, finalmente a peça pode ser apresentada. Sem luz, som e coberta, Renata Carvalho deu voz a Jesus, que, no monólogo, é representado num corpo travesti.

Ao longo da peça, passagens bíblicas são usadas para refletir sobre amor, compaixão e acolhimento, em ensinamentos pregados por Jesus, abraçando a todos e todas, sem distinção. “Eu nunca disse que perseguissem homossexuais, transexuais e travestis”, falou o Jesus de Renata Carvalho, aludindo à opressão sofrida por essa parcela da população.

Envolta por muita emoção, a apresentação ganhou ainda mais sentido ao reverberar que a tentativa de censura à peça é mais um dos ingredientes que se somam à intolerância e ao ódio contra os quais Jesus – que só pregava o amor – se colocou.

Posicionamentos

“Essa foi a passagem mais tensa desde 2016 quando a peça começou a circular o país”, disse a diretora Natalia Malo sobre a sucessão de episódios em Garanhuns.

“É uma violência simbólica e uma violência efetiva contra Renata, que é agredida na sua identidade. O sistema internaliza essa cultura de exclusão daquelas vozes que são caladas historicamente”, comentou.

Renata Carvalho (Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

“Isso tudo se deve à construção social e à imagem que as pessoas têm do que é ser uma travesti, à criminalização da nossa identidade e folclorização das nossas vivências”, disse Renata após a apresentação.

“A gente passou por uma série de violências. Encheram de policiais aqui, trancaram os portões, proibiram que pessoas entrassem e saíssem. Parecia que estávamos em tempos de barbárie e ditadura”, disse o jornalista Chico Ludermir, um dos membros do coletivo que viabilizou a apresentação da peça em Garanhuns.

Governo de Pernambuco

Até o fechamento desta matéria, Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe não se posicionaram oficialmente sobre a confusão envolvendo a apresentação da peça nesta noite.