“Se o Bar do Milton quisesse ele poderia muito bem ser um restaurante de comida regional rochedo”. Isso é o que normalmente falo quando certas pessoas me perguntam os motivos de me empolgar tanto ao falar de um local aparentemente tão desprovido de atrativos. Aparentemente.

Localizado no bairro do Janga, em uma rua conhecida como “a entrada do Tururu”, o Bar do Milton é a mais perfeita tradução do que a semiótica diria sobre um boteco. A propósito, falar de perfeição nesse contexto deve ser uma afronta aos Deuses do Boteco, que devem ser os mesmos deuses do futebol de rua, da música que é produzida pelo povo e das cadeiras nas calçadas.

Os 40 anos de (r)existência do Bar Aritana

O Bar do Milton também pode ser conhecido como “pega bêbo”, “pé sujo”, “pé de calçada” e muitas outras definições que a meu ver só enobrecem a causa e legitimam a existência dessa ágora jangamaicana.

Como acertadamente um dia já revelou Simas, nesse tipo de ambiente “não há o corpo-máquina, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que cumpram-se seus rituais.”

A placa do bar é um ponto de referência no bairro do Janga. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
Galego agora tem um quadro para facilitar os pedidos. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

“Olha que inovador”, aponta meu pai para um quadro-negro informando em giz os pratos que estão disponíveis para deleite no dia. Mão de vaca, patinho, caranguejo, guisado de boi e porco, sarapatel, marisco, bisteca de boi e porco e fígado. Há pouco tempo o ace$$ível cardápio só era revelado no téte a téte com Galego, garçom que está por lá há 17 anos.

“Gostamos daqui por conta da simpatia de Milton”, disse um frequentador enquanto eu honrava um ele/ela no balcão. “Minha filha era jornalista, agora é policial militar”, complementa um pouco depois em uma associação livre que estou a refletir até agora. Ou a ordem não tenha sido exatamente essa.

Por lá é assim, a língua está viva e na mais imperfeita transformação, o que pode parecer desorganizado, nada mais é do que uma simples reconfiguração.

Milton atende os clientes diretamente no balcão. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
A clientela masculina prefere o balcão, mulheres e famílias preferem sentar em mesas. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui
Dinha e Gisela comandam a cozinha com tranquilidade. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

A (r)existência de um espaço de convivência para comer e beber como o Bar do Milton em um bairro tão encantador como o Janga, é fomentado por um ambiente vivo e imprevisível de ideias e ideais, sem o pedantismo literato e intelectual das academias, porém calcado na sagacidade de quem precisa ou um dia já precisou se reinventar diante das indigências da vida.

É por ali que podemos ver as cores vivas, os copos americanos, as sandálias de dedo, o limão no sarapatel, a camisa do Santa Cruz comprada na loja da esquina, os dedos em riste, as contradições e a alegria do falar e rir alto. Cláudia (Dinha) e Gisela, artistas da brasileiríssima cozinha do bar não param um segundo nesse fusuê. Devemos reverência.

História viva

Pátio do bar onde Altemar Dutra teria dedilhado a viola. Foto: Rodrigo Édipo/PorAqui

“Altemar Dutra já tocou violão aqui mesmo”, disse o senhor da mesa ao lado enquanto escolhiamos várias músicas do mesmo na radiola de ficha. “Ele morou no Janga”, complementa.

Sabemos que a vida que pulsa nos bairros mais nobres onde o “progresso” chegou já começou a perceber a arapuca que caiu. Por isso precisamos, principalmente nos tempos de hoje, de lugares como o Bar do Milton e muitos outros, pois estão permeados de sentimentos e experiências acumulados que se renovam a cada gole.

Por fim, que a assepsia dos pés limpos possam dar um rolezinho para além dos shoppings e se permitam a chegar um pouco mais perto para entender e trocar, pois todas e todos tem algo de bom a compartilhar e é assim que vida vai resistindo.

Milton, morador de Olinda, há 40 anos abriu o bar naquele local. “No dia 19 de junho vou fazer 72 anos”, revela enquanto prepara um quartinho para ele mesmo tomar. Segundo o mesmo, ali onde estamos é o bar mais antigo do Janga. Penso eu que isso sim é um acontecimento histórico digno de relato. Quais outros também são ou foram?

Bar do Milton
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Rua Glauber Rocha, 210, Janga/Paulista
? Terça a domingo, das 7h às 22h