A história de Pernambuco pode ser contada por diversos prismas, e com o crescente desenvolvimento de nosso polo cervejeiro, cujos nomes e rótulos se inspiraram em nossa memória, porque não contar a nossa história através deles? Vamos ver o que as cervejas de Pernambuco tem a falar sobre nós mesmos.

LEIA TAMBÉM:

O que a Capunga tem a ver com a primeira caneca de cerveja servida nas Américas

Pense grande, beba local: a hora e a vez de o mercado cervejeiro crescer

A primeira cerva das Américas

O ano era 1630 e, após uma fracassada invasão à Bahia, a esquadra da companhia holandesa invade Pernambuco. Inicialmente tendo tomado Olinda, os invasores optaram pela expansão do Recife. Começavam esse trabalho a passos largos, tanto em tamanho quanto em infraestrutura.

Com a chegada do Conde Maurício de Nassau, muitos artistas e cientistas começaram a aportar na região. Um deles era o cervejeiro Dirck Dick, cuja missão era criar uma cervejaria na cidade mauriciana, que virou a primeira cervejaria das Américas! A cervejaria ganhou o nome da residência na qual estava instalada, La Fontaine, que significa “A Fonte” em francês, que ficava na Capunga.

Anos depois, uma das primeiras fábricas da recente história cervejeira de Pernambuco fez o resgate desse nome. Procurou saber como ficaria “A Fonte” em holandês e, wow, descobriu que era Debron.

Degustando as primeiras imagens

No seleto grupo de artistas e intelectuais que vieram na comitiva de Nassau, estava um pintor chamado Albert Eckhout que, junto com Frans Post, tinham a missão de retratar o Brasil Holandês.

A empreitada desses dois artistas rendeu vários quadros que retrataram não só os primeiros habitantes do país, como também a flora da região, sendo os responsáveis pelos primeiros registro de nossa Mata Atlântica.

Hoje, há uma cervejaria que se inspirou no talento desse artista a ponto de adotar seu nome, a Cervejaria Ekäut. Visitações guiadas a fábrica são permitidas e te dão direito a uma degustação de seus principais rótulos, com vista para a Mata Atlântica!

Briga de irmãos que acabou em cerveja


Os anos posteriores a expulsão dos holandeses foram de atrito entre a aristocracia de Olinda, restaurada após um incêndio, e os comerciantes de Recife, conhecidos como mascates. A cidade, que antes era o porto da capital, agora estava fortalecida pela infraestrutura dos invasores.

Os ânimos se acirraram quando, em 1710, o governador Sebastião de Castro Caldas tornou o Recife uma vila, independente de Olinda. As tensões culminaram na Guerra dos Mascates, uma guerra civil para chamar de nossa.

Mágoas deixadas no passado, hoje as cidades celebram sua irmandade de forma saudável. Durante o Carnaval, recifenses e olindenses se encontrando na convergência das ruas Amparo, Prudente de Morais, Bernardo Vieira de Melo e Ladeira da Misericórdia, carinhosamente batizada de Quatro Cantos, que também dá nome a uma cervejaria da região.

E para sacramentar de vez que não há brigas, a loja de insumos cervejeiros Mascates está localizada sabe onde? Em Olinda!

A expansão da Zona Norte em duas garrafas


A “La Fontaine”, antes de ser cervejaria, era a residência de descanso do Mauricio de Nassau. Ficava próxima ao Rio Capibaribe, afastado do porto e próxima a uma aldeia indígena. Não existem registros precisos da localização dessa residência, mas, conforme consulta com o Prof. José Luiz da UFPE, ficava entre a rua das Creoulas e a Cardeal Arcoverde, e cuja proximidade com o rio favorecia o abastecimento da cervejaria.

No século XIX, o local começou a ser loteado e aos poucos foi surgindo um bairro chamado Capunga, que empresta seu nome a uma das cervejarias de nosso estado.


Outro bairro na zona norte também surgiu a partir de alguns sítios e loteamentos por volta de 1800. O atual bairro do Espinheiro teve origem numa região conhecida como Matinha. Tempos depois, uma das áreas passou a ser chamada de “Beco do Espinheiro” carregando a tradição da época de batizar os caminhos e estradas com o nome das árvores predominantes da região. Foi apenas uma questão de tempo para esse ser o nome do bairro.

Tempos depois, um cervejeiro caseiro da nossa era começou a fazer suas primeiras levas no mesmo bairro. Ao formalizar a produção, quis homenagear o bairro, traduzindo Espinheiro Branco (nome da planta) para alemão, e encontrou Weissdorn!

A Zona Sul também quer tomar uma

No início do século XVIII, ao chegarem à capitania de Pernambuco,  viajantes vindos do Sul sempre encontrava um descanso em algumas vendas existentes onde hoje é o bairro de Boa Viagem. A partir de então, o local começou a ser povoado. Em 1743 era inaugurada uma capela em louvor à imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos viajantes e navegantes.

Hoje o nome Navegantes, além de dar nome a uma das ruas do bairro de Boa Viagem, também batiza uma das mais novas cervejarias de nosso estado.

O ecossistema onde o Recife fermentou


A povoação do Recife teve como entrave um ecossistema natural de regiões alagadiças, o manguezal. Sendo estuários dos rios Capibaribe e Beberibe, os mangues eram predominantes na região e por ser encarados como áreas sujas e desnecessárias, as planícies alagadiças foram aterradas aos montes para edificar prédios e casas. O Recife é uma cidade que está sobre o mangue.

Com o tempo, o resgate da importância desse ecossistema foi surgindo, tanto pela manutenção do ar que respiramos, como na administração da teia alimentar do entorno. Essa mudança de visão para com o nosso principal ecossistema foi a inspiração para o batismo da cervejaria Manguezal.

Um gole de cultura

Ariano Suassuna foi um dos maiores nomes da língua portuguesa da atualidade. Nascido na Cidade da Parahyba (atual João Pessoa), o dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta e professor escreveu várias peças, romances e contos como O Romance d’A Pedra do Reino, o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta e, provavelmente a mais conhecida de todas, o Auto da Compadecida. Ariano também foi criador do Movimento Armorial, uma iniciativa artística que buscava criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura nordestina. Hoje temos a Cervejaria Armorial, com rótulos inspirados no grande Ariano.

Uma saideira para esse tumulto

Hoje Recife respira contrastes. Os versos de Chico Science já lembravam uma pesquisa da ONU que classificava a cidade como a quarta pior do mundo. Melhoramos bastante em relação aos números da década de 90, mas estamos longe do ideal.

Esses conflitos geram uma relação de amor e ódio que temos pelo Recife. Centro da cidade caótico, trânsito conturbado, basta chover um pouco para que tudo isso piore. Mas se você não é daqui, nem ouse falar mal de nossa cidade, pois terá toda a fúria do pernambucano derramada sobre vossa cabeça. Somente nós podemos falar mal de nós mesmos.

E nessa filosofia, eis que surge uma nova cidade: Hellcife. A nossa Hellcife, e de mais ninguém! E para celebrar essa nossa bipolaridade, eis que surge a cervejaria HellCife para bebermos antes do almoço e pensarmos melhor qual será o futuro de nossa querida, porém odiada, cidade.


Jayme é engenheiro, cervejeiro e nerd old school. Nívia é jornalista, leitora compulsiva e mãe de um labrador chocolate. Juntos, eles amam viajar e são os ‘travel writers’ responsáveis pelo blog Juntando Mochilas.

 

O conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião do PorAqui. Somos uma rede que visa mostrar a pluralidade de bairros, histórias e pessoas.