“Quatro mulheres assumindo um bar?” é uma pergunta rotineira no cotidiano do casal Gisela e Cecília, e das irmãs Elanna e Rayssa, que tocam o Sovaj, bar vegano no bairro da Boa Vista, Centro do Recife. O sonho nasceu de Gisela, que encontrou em Cecília uma parceira para se aventurar na experiência, mas as duas garantem que o plano só tomou forma com a presença de Rayssa e Elanna, peças fundamentais nesta engrenagem.

O sonho aliou-se a uma inquietação causada pela falta de opções de lugares para tomar uma cerveja gelada acompanhada de comidinhas veganas gostosas e com preço justo  no Recife. Além disso, por ser um bar pensado e tocado exclusivamente por mulheres, o Sovaj acaba sendo um ambiente acolhedor e seguro tanto para as que trabalham quanto para as que se divertem, segundo Gisela. Pelo mesmo motivo, o espaço é também muito bem quisto pelo público LGBT, diz Elanna.

Apesar das dificuldades inerentes, vencer o estereótipo de que mulheres sozinhas são vulneráveis é uma das bandeiras levantadas pelas moças que fazem o Sovaj –  e elas fazem isso muito bem, diga-se de passagem.

O centro vive

O Sovaj (que significa “do mato” em idioma  crioulo haitiano) brotou no coração do Recife em 11 de janeiro de 2018, ali ao ladinho da Faculdade de Direito, defronte pro Parque Treze de Maio (Rua Princesa Isabel, 207). Localização simbólica, onde pulsa a resistência dos que vivem e fazem o centro da cidade, apesar dos entraves do movimento de esvaziamento – sobretudo à noite – que a região vem sofrendo.

O lugar tem um viés carregadamente urbano e ao mesmo tempo é de uma leveza colorida, dialogando com a cidade de maneira muito fluida. Transeuntes e moradores da região (aqui leia-se também os em situação de rua) já conhecem as meninas e as tratam com respeito e afeto, como numa grande rede de apoio.

Ambiente aconchegante e acolhedor (Foto: Gisela Lima)

A localização ainda milita a favor do movimento vegano, visto que muitas pessoas que não são veganas acabam frequentando seja por estarem ali por perto ou pelo atraente preço da cerveja sempre gelada, o que as faz cair nas graças de um tempero totalmente livre de sofrimento animal, mas cheio de sabor (go vegan!).

Cardápio 100% vegano

O cardápio impresso ainda é temporário, mas alguns itens que não constam nele já estão disponíveis, como a cebola empanada na cerveja (R$ 11), as tortas fornecidas pela Dhuzati – Cozinha Coletiva Antiespecista Artesanal  (R$ 5), e os sucos de fruta, que custam R$ 4. A caipirinha custa R$ 5 e a caipirosca, R$ 8.

A coxinha de brócolis é destaque da casa, sendo bem generosa no tamanho e no sabor de tempero marcante, por apenas R$ 6.

Coxinha de brócolis pronta pra ganhar seu coração (Foto: Gisela Lima)

O falafel (bolinho frito de grão de bico) vem na porção de 5 unidades e acompanha molho barbecue por r$7.

(Foto: Gisela Lima)

Os pastéis fritos, recheados de soja apimentada e empanados no açúcar, são de encher os olhos. A porção custa R$ 7.

(Foto: Gisela Lima)

Há também o muito bem recomendado escondidinho de batata com recheio de espinafre (R$ 7), além dos caldinhos de feijão e do mar com crispy de couve (R$ 5).

(Foto: Gisela Lima)

 

Caldinhos de feijão e do mar (Foto: Gisela Lima)

Mas o que é que feminismo tem a ver com veganismo?

A opressão submetida aos animais em fazendas de criação de gado ou em granjas têm como alvo, por sua maioria, o gênero feminino. Lá, as fêmeas sofrem diversas violações, inclusive inseminações artificiais nas chamadas “fileiras de estupro” e gestações forçadas e em sequência, sendo impedidas de amamentar seus filhotes, até que seus órgãos reprodutivos não tenham mais qualquer serventia, quando finalmente são abatidas.

 

Ou seja, o consumo de alimentos de origem animal fomenta uma indústria que nutre a objetificação do corpo dos animais e naturaliza a cultura do estupro.

Independente de serem fêmeas não humanas, o feminismo não poderia entender como natural explorar um corpo pelo simples fato dele ser capaz de reproduzir, ou seja: por ser de uma fêmea. Aliás, impor sofrimento a qualquer ser não poderia ser naturalizado, né?

O Sovaj representa, então, várias resistências: mulheres que tocam sozinhas um bar (quando a sociedade patriarcal afirma a todo instante que elas não são capazes disso), a propagação do veganismo a preço popular e a oxigenação do centro da cidade. Na contramão do capitalismo selvagem, o Sovaj propaga respeito e amor – tudo isso acompanhado de uma explosão de sabores!

Sovaj Veg Bar
Rua Princesa Isabel, 207, Boa Vista, Recife – PE
Horário: terça e quarta das 18h as 00h e de quinta à sábado das 18h00 as 01h30
Telefone: (81) 99173-5584
Instagram: @sovaj_vegbar

Por Katarine Araújo, do Não Nem Queijo

Katarine Araújo é poeta, às vezes advogada, mas nem sempre foi vegana. Quer mostrar PorAqui, através do canal Não Nem Queijo, que a culinária livre de proteína animal pode ser simples e acessível – e muito saborosa, claro.

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