Eu tinha acabado de completar sete anos quando, um dia, a polícia bateu lá em casa. Fizeram perguntas, quiseram saber quem frequentava o ambiente, foram até o quintal verificar o muro dos fundos. Depois mamãe explicou o mistério: o Papa vinha ao Recife, e ia ficar hospedado no Palácio do Bispo, um casarão imenso separado de nós apenas por aquele muro.

A menina fantasiosa que eu era começou a maquinar um plano infalível. Eu ia pular o muro, escalando o pé de manga-espada. E ia correr até o quarto do Papa, falar com ele, dar um presente e aparecer na televisão. Mas o que eu poderia dar a ele? Um desenho meu, talvez? A dificuldade maior era saber quando o Papa estaria lá. Afinal de contas, eu nem sabia direito o que  danado ele vinha fazer no Recife, e logo ali, juntinho de casa.

Eu morava nas Graças, na Rua Gervásio Fioravante, 66 – numa casa que a Diocese alugava à minha família e que, atualmente, junto com mais outros dois imóveis, deu lugar a um imenso edifício. Nos anos 1980, a rua era tranquila e mesmo aos sete anos eu tinha liberdade para brincar livremente, sem temer ladrão nem automóvel. Por isso mesmo, a visita preventiva dos seguranças me marcou e deu ideias.

Imagem da época em que eu vi o Papa

O Recife em polvorosa

Só que eu comi mosca e acabei sem pular muro nenhum. Acho que, em parte, por medo de ser presa ou de haver algum cachorro bravo me esperando do outro lado. No dia D, eu só ouvia os adultos comentarem sobre a chegada do homem, o cortejo, a missa. Minha mãe não era lá muito afeita a esse negócio de igreja; já meu padrasto era mais. De qualquer forma, não dava para ignorar a visita que pôs o Recife todo em polvorosa. Ainda assim, lá em casa ninguém falava em ir participar da festa.

Quem salvou a pátria foi meu tio Zelito, que carregou a mim e a meus irmãos para dar a volta no quarteirão e, enfim, ver João Paulo II, em meio a uma multidão que se aglomerava para saudá-lo. Como ousadia maior, levamos a tiracolo meu irmão menor, com menos de dois meses de nascido e recém-saído de uma internação hospitalar. O Papa era milagroso mesmo, porque a aventura não rendeu nenhuma complicação para o bebê.

Quando ele foi à janela acenar para nós, alguém me levantou e minhas retinas enfim gravaram a memória que ficou daquele dia: um vulto de branco, na sacada do Palácio dos Manguinhos, e muitas vozes emocionadas cantando em sua homenagem.

Cortejo do papamóvel seguiu pela avenida Boa Viagem em direção à Ilha de Joana Bezerra

POVO FOI ÀS RUAS PARA VER UM PAPA PELA PRIMEIRA VEZ

Milhares de pessoas, de Pernambuco e de estados vizinhos, tomaram as ruas do Recife no dia 7 de julho de 1980: queriam ver João Paulo II percorrer a Avenida Boa Viagem, no papamóvel, e celebrar missa na Ilha de Joana Bezerra. Era a primeira vez que um Papa pisava o solo brasileiro, e a única até o momento em que um sumo pontífice esteve em Pernambuco. Recife foi a oitava parada de João Paulo II naquela visita, e daqui ele seguiu para Teresina, no Piauí.

A imprensa da época registra que a cidade inteira se enfeitou com flores amarelas e brancas, em homenagem à padroeira Nossa Senhora do Carmo. Num momento em que o Brasil ainda vivia um regime de ditadura militar, o Papa fez questão de demonstrar seu apreço pelo então arcebispo, Dom Helder Câmara, que se posicionou contra os atos do governo e foi perseguido por isso, e também defendeu os pobres durante a missa.

Fachada do Palácio dos Manguinhos (Acervo Cúria Metropolitana do Recife)

João Paulo II pernoitou no Palácio dos Manguinhos, na avenida Rui Barbosa, e experimentou comidas típicas como tapioca e bolo de rolo em seu café da manhã.

Veja abaixo um vídeo produzido pela Cúria Metropolitana, com pessoas que estiveram com o Papa durante sua visita ao Recife: