Muito da minha vida mudou desde que eu me mudei, como vocês já acompanham aqui. Eu tive que “me despedir” dos meus amigos, abandonar uma rotina, ficar longe da minha mesa no meu restaurante favorito em Candeias. Mas essa semana não é sobre mim.

É sobre os outros.

Os espaços incompletos de toda cidade: eu os vejo

Minha mãe abriu mão de ser vizinha dos irmãos. Minha família era quase uma comunidade, as fronteiras entre um prédio e outro eram puro fruto da engenharia. Dividíamos chaves, almoços de domingo, cama, casa. Afastar mainha dessa rotina – por mais que tenha sido uma decisão nossa – foi a parte mais complicada.

Mas as mudanças não afetaram tanto assim. Minha família continua presente, minha mãe sempre visita. E nossa casa que, antigamente, significava comida sempre, hoje tem até piscina – pra alegria geral dos meus primos crianças e adolescentes.

Minha mãe já tem os espaços que ela mais gosta, já sabe o nome de alguns vizinhos e dos porteiros. Já sabe o que comprar em cada “venda” do bairro, o melhor horário para ir na lotérica e qual farmácia tem mais opção de shampoo.

As plantas que ela cultiva ocupam espaços pela casa toda, pelo corredor. A varanda virou seu quarto, sua cama é a rede, o sol e o vento da manhã seu despertador.

O outro afetado foi meu namorado. Um dia antes da mudança – que aconteceu de surpresa, em plena quinta-feira – nós fomos até o restaurante de sempre, sentamos na mesma mesa de sempre e eu fui me despedir do garçom e da dona do restaurante. Eu não estaria mais ali três vezes por semana, saindo junto com os funcionários.

Eu e ele não pegaríamos mais o mesmo ônibus pra voltar pra casa. A gente não podia mais se encontrar em momentos aleatórios no meio da tarde só pra tomar sorvete. Nossos fins de semana mudariam totalmente de configuração. Mas ele se adaptou – mais rápido que eu, ouso dizer – e criou sua (ou nossa) própria rotina.

Cada um foi descobrindo, aqui e ali, a vida por essas bandas. E eu descubro – um pouco mais todos os dias – a alegria de viver. Aqui. E com eles.

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.

 

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