Por Paula Melo, do PorAqui

Uma mão cheia de rugas amassa a argila. Tira dos bolsos contas verdes que vão virar os olhos de um jacaré. Com um palitinho, vai marcando o corpo do anfíbio. O bicho pronto vai inspirar crianças pequenas, quatro, cinco anos, a fazerem um igual.

Tildinha, ou Dona Clotilde, é o nome da velhinha que, no mínimo, uma vez por semana, adentra a Casa das Asas, com gritos de "Boa tarde! Tem criança?". Sua ida ao espaço lúdico localizado na Rua Dom Sebastião Leme, nas Graças, uma vez por semana, sem data marcada e horário certo, tem um motivo muito simples. 

A bisavó mora a poucos metros do endereço inaugurado há menos de um mês pelas sócias Camila Domingues de Souza e Tetê Brandão. Na maioria das vezes, a visita é rápida como o pouso de um passarinho, dura apenas 15 minutos.

Aos 86 anos, Tildinha tem uma personalidade artística. Segundo ela contou em uma dos momentos na Casa das Asas, nunca fez curso de artes. No entanto, seus trabalhos são originais e cheios de bossa. Ganhou até de Bia Lima, a arte-educadora que sempre a acompanha por lá, um daqueles envelopes grandes, de papel, para que toda a "produção" fique bem guardadinha.

Tildinha não é uma total desconhecida das pessoas que fazem a Casa das Asas. Camila, por exemplo, foi vizinha dela durante muitos anos, no prédio da Sebastião Leme. Figura gregária, faz um cozido todas as segundas em casa, onde recebe parentes e amigos. 

O ambiente – e a família, claro – é muito ligado às artes, com muitas obras na parede, esculturas, artesanato. Segundo definição do sobrinho Dida Maia, também morador das Graças,  Tildinha "é uma figura, uma artista, uma greadora".

"Quando ela entrou na Casa das Asas na inauguração, acho que se reconectou com as lembranças, com as vontades. Acendeu algo motivador na vida dela", analisa Camila. 

"Ela perguntou: 'posso vir aqui dar aulas?' A Casa das Asas está aberta pra muita gente e  vai ser preenchida por essas pessoas, sejam profissionais de música, profissionais de dança, sejam pessoas que queiram ser voluntárias nesse aspecto de compartilhar algo com o outro", diz Camila. 

(Foto: Beto Figueirôa/Casa das Asas)

Para Camila, a Casa das Asas é um espaço que Tildinha tem usado para se conectar consigo, trocar tantas coisas ainda com as crianças. "Tildinha vem acho que pra se abastecer do amor puro das crianças, do espaço gostoso, da liberdade de criar, de mexer em argila, de pegar um lápis, de se sentir útil", conta.

Já Bia, a arte-educadora, conta que as idas de Tildinha têm sido um presente pra ela. "Ela chegou e eu percebi que ela tinha algo especial. Já chegou botando a mão na massa, dizendo 'me dê um barrinho'. Ela já chega com contas dentro do bolso. Já traz de casa coisinhas pra fazer um olho", diz Bia, com carinho. 

Depois de Tildinha se tornar integrante honorária da equipe da Casa das Asas, já que ela própria tem a preocupação de ensinar às crianças, foi que Camila, Tetê e Bia tiveram a ideia de formar grupos de vós/bisavós, já que ali é um espaço de convivência das famílias. 

O intuito é juntar velhinhos e velhinhas dispostos a participar de oficinas com atividades para idosos, como pintura com aquarela e bordado, entre outras. Os interessados podem procurar a Casa das Asas para a inscrição.

Tildinha talvez não saiba. Mas a cada vez que a porta da Casa das Asas se abre pra ela, sua alegria de viver azeita as asas de um bocado de gente. Vai, Tildinha, voa, mas volte sempre!

Casa das Asas – Casa de Convivência Lúdica e Criativa
Rua Dom Sebastião Leme, 81, Graças | (81) 3072.7763
Horário de funcionamento: de segunda a sexta, das 8h às 18h; sábado, das 9h às 18h30.


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