Carros de som povoaram as memórias da criança nascida no Sertão, avisavam sobre a inauguração das lojas, promoções, festas, eventos e mortes dos conhecidos, alegria e tristeza saindo pelos alto-falantes. A vida da cidade era narrada pelo homem dos anúncios, proprietário do veículo que andava os quatro cantos do pequeno lugar, percorria as ruas numa velocidade suave, para garantir que os habitantes se manteriam informados.

Hoje, em tempos tecnológicos e midiáticos, a informação pode ser acessada facilmente, mas naquele tempo, o carro de som passar na rua era um acontecimento. Se estivessem conversando em casa, interrompia-se o diálogo; só um minuto que vou ouvir.

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Mulheres varrendo a calçada também paravam o gesto para prestar atenção às informações e tinha uns meninos que insistiam em ficar pendurados no veículo, principalmente  nas portas e traseira para pegar um “bigu”.

Uma das felizes surpresas que tive ao vir morar nas Graças foi escutar da minha janela o carro de som passar anunciando a inauguração da frutaria, promoções nos estabelecimentos comerciais, divulgação de água e gás e um tanto mais de coisas. Era a novidade chegando aos lares do bairro e saber o que está acontecendo é sempre bom.

Minha casa ficou ainda mais com “ar de casa”, depois dessa pequena singularidade de ouvir os anúncios e percebi que era um bairro que cultivava esses pequenos hábitos, como o dos vendedores que passam pelas ruas anunciando seus produtos, mais isso é assunto para outra crônica.

 

Raiza Figuerêdo chegou ao mundo no verão de 1989, em Salgueiro, Sertão de Pernambuco. Nas curvas da estrada, foi descobrindo seus vários eus: escritora, psicóloga, cientista, professora e ainda outros. Tem buscado treinar o olhar para enxergar as pequenas grandes coisas do cotidiano, que coloca no ar em seu site e no canal que mantém no PorAqui, ‘Enquanto Caminho’. Mora nas Graças.

 

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