Aqui ainda há ruas de paralelepípedos, casas com azulejos portugueses e pinhas, nascidas no final do século XIX, com ares misteriosos e habitadas por ninguém, outras abrigam restaurantes, consultórios, construções centenárias, personagens da paisagem local. Também há prédios modernos com nome de sítio que prestam homenagem ao tempo que aqui era mato. Tudo cabe no olhar.

Se você é dos que acordam com os passarinhos, encontrará crianças que vão conhecer as letras nas escolas ou senhoras indo fazer hidroginástica, também avistará pessoas carregando tapetes de yoga para trazer leveza ao coração e à cabeça.

Graças old school: a vida de quem cresceu no bairro nos anos 80 e 90

Os pés te levam à beira do rio por várias paralelas que cortam a rua das Graças, que batiza o bairro de clima interiorano, você vai passando e escuta a missa na igreja, que ainda toca o sino e se estiver com fome; uma tapioca comprada quase na calçada de casa pode alimentar as barrigas. Reconhece as pessoas, embora não saiba o nome.

Há um clima solar que reflete no rio e se espalha pelo bairro, essa atmosfera acompanha o dia e você pode sair de casa às dez da manha para ir à frutaria, supermercado ou pagar as contas, no percurso aproveitar a sombra das árvores, permitir-se demorar mais um pouco e senti-las fazerem cafuné em sua cabeça. Uma manga pode cruzar seu caminho. Ao cair de repente, colha e deguste, foi para você.

Pode ocupar seu tempo em cafeterias que alegram suas narinas e reservar uma parte do dia para conhecê-las, quem sabe ir a pé? são muitas e fazer seu diário dos grãos de cafeína, tipos que agradaram o paladar. As padarias também são um capítulo à parte, algumas deixam o pão em casa, sob encomenda o alimento chega através das bicicletas.

Aos poucos, você começa a encontrar cachorros passeando na rua com seus tutores e velhas que saem para comprar o pão. O som dos sapos, grilos, seres do rio e do pássaro de fim de tarde num antigo casarão ocupa os ouvidos e te diz que é noite; parece que você não está numa metrópole, principalmente se morar perto da beira do Capibaribe. Nos tempos de chuva isso se intensifica e as águas do céu trazem energia para esses seres que cantam ainda mais alto.

No outro dia, ir a pé para o trabalho e habituar os olhos a perceberem essas pequenas sutilezas e paisagens afetivas desse lugar centenário, habitat de árvores, plantas, seres do manguezal, aves, cachorros, humanos, capivaras e gatos, pedacinho de chão cravado no coração de Recife.
De resto, ir vivendo graciosamente.

Raiza chegou ao mundo no verão de 1989, em Salgueiro, Sertão de Pernambuco. Nas curvas da estrada, foi descobrindo seus vários eus: escritora, psicóloga, cientista, professora e ainda outros. Tem buscado treinar o olhar para enxergar as pequenas grandes coisas do cotidiano, que coloca no ar em seu site. Mora nas Graças.

 

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