Quando comecei a usar o Uber, ele ainda era um aplicativo de caronas. Atualmente, é um serviço de conversas. Lembra o antigo “147”. Está se sentindo sozinho? Chama um Uber. Deveriam escrever “seu bate-papo compulsório com o motorista será de R$ 17,35. Aceita?”. Faz tempo que não pego uma corrida silenciosa. Mais tempo ainda que não pego um motorista que saiba para onde está indo.

O problema desses problemas é que não há muitas alternativas. O transporte público, na RMR, é uma piada de mau gosto mais elevado do que meus textos. Agravou-se recentemente e, pelo andar da carruagem (digo, pela falta de andar, na verdade) não há sinal de que vá melhorar. E olhe que eu moro no Derby, praticamente na Praça. Mais central que isso, só o bar da Mamede Simões.

Humor: Encruzilhada, a Paris recifense

Pegar táxi deixou de ser uma opção quando, pela 38ª vez, um motorista me disse que a ditadura militar deveria voltar. De besteira já basta o que eu escrevo. Bicicleta seria a solução, mas eu sou frouxo e o Poder Executivo estadual e municipal mais ainda.

O Plano Diretor Cicloviário foi lançado há três anos pelo Governo do Estado e só em 2017 começou a sair do papel. Talvez meu filho usufrua dele. E nem venha me falar das “ciclofalsas” de fim de semana, porque aquilo é coisa pra turista e gente que passeia. Estou falando do dia a dia. De milhares de trabalhadoras e trabalhadores que se arriscam entre os “mautoristas” da cidade e só por isso já tem meu incondicional respeito e admiração.

Quem vê gíria não vê coração

Então, sempre que clico no ícone do aplicativo, preparo-me, mentalmente, para ficar mexendo a cabeça para cima e para baixo e soltar esporádicos “pois é”, “Já pensasse?” e “Existe isso?”. Ademais, decoro o caminho que vou fazer para não correr o risco de depender do “GPS deu um pau aqui. Rapidinho. Eita, que esse 3g tá só a graça. Já já pega de novo. Pegou. Eita, era para ter entrado na outra rua. Pera.”

Estou pensando em aprender Libras só para não precisar falar durante a viagem. E porque é muito rochedo saber Libras.

 

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Daniel Barros é recifense, formado em Letras pela UFPE. Atualmente mora no Derby, mas é cria da CDU. Come e bebe em demasia. Já tomou muita cerveja no Mercado da Encruzilhada.  Nos intervalos, anda de ônibus. Nesta vida, veio a passeio, mas ficou preso em Abreu e Lima. É conteudista colaborador do PorAqui para desperdiçar seu tempo.