Por Dida Maia *

Já tinha ouvido relatos de felizardos que tinham avistado umas capivaras e até assistido uns vídeos feitos de apartamentos próximos ao rio e lamentava nunca estar presente. Imaginava que deve ser legal ver um roedor tão grande andando pertinho da gente. O que me faz querer tanto isso: estes animais deram o nome ao nosso rio pela grande quantidade que havia em suas margens, antes da urbanização desta metrópole tão desorganizada. Como nos meus cinquenta anos de morador das proximidades do Capibaribe nunca havia encontrado com nenhuma, me perguntava por onde andavam e se o sumiço teria sido para sempre.

Nasci na Rua Clóvis Beviláqua, no bairro da Torre, bem pertinho da Beira Rio e – fora uns poucos anos que morei em Olinda -, Casa Forte, Parnamirim, Santo Amaro, pertinho da Rua da Aurora e Graças foram meus endereços, sentindo a umidade do Rio das Capivaras e, talvez possa afirmar, não houve dia em que não tenha olhado suas águas.

Se fizermos um estimativa no chutômetro, podemos afirmar que o recifense passa por cima de uma ponte pelo menos quatro vez por dia o que no meu caso resulta em três milhões e seiscentas mil travessias. Se somarmos as vezes em que fui na margem pra ver o rio cheio nas vésperas das cheias, levar crianças pra ver os caranguejinhos e xiés, ou quando ia ali fumar com amigos nos bons tempos do Baixo-Graças e até quando trabalhei como garçom no Papa-Estrelas (no final da Dom Sebastião Leme), são muitas situações sem uma única capivara!

Há uma escultura, que deve ter sido feita por Cavani Rosas, na entrada do Instituto Capibaribe, que me impressiona por mostrar as dimensões de um bicho destes – como pode um preá crescer tanto? Este animalzinho tem uma cara bem amigável e escolhi ele para ser o personagem dos cartazes de divulgação dos eventos que a Associação Por Amor às Graças realiza de vez em quando, como o Dia das Crianças nas Graças. Ele anuncia as atrações ao lado de jacarés, peixes-boi, garças, saguis e lontras, além de passarinhos e borboletas, pois é o símbolo de nossas atividades. Imprimimos camisas e fizemos moldes em borracha, madeira e papelão para as crianças pintarem. Mesmo assim, todo este universo imagético carecia da experiência do contato visual com uma de verdade.

Até que no começo da noite do dia 10 de abril, naquele trecho sem calçamento que leva à Ponte da Torre, eu e Fernanda avistamos duas lindas capivaras comendo capim. O farol do carro iluminou-as bem, mas isto não as incomodou, pois continuaram tranquilonas lá. Devem estar se acostumando com a presença de humanos e ganhando confiança de que não faremos maldades. A nova consciência ambiental e a nova concepção urbana podem ser razões para o retorno, embora eu prefira pensar que a volta delas é sinal de que os tempos em que destruíamos tudo está se acabando e um novo está chegando. Eu vi.


* Dida Maia é designer e morador das Graças há 19 anos.


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