Eu não sei onde foi parar meu pouco interesse para a Copa do Mundo. Não sei se foi o 7×1. Não sei se foi o Brasil. Não sei se foram os horários complicados.

Eu não sei.

Mas eu fui ainda tentar assistir um jogo num bar. Vi o primeiro tempo e voltei pra casa.

Já o segundo e o terceiro jogo, eu estava em casa e pude acompanhar pela janela cada passo do processo. Cada vez menos pessoas na rua, até o eventual silêncio. Nem as ambulâncias, que já são parte essencial da musicalidade do bairro, pareciam ter sumido.

O eventual silêncio virou barulho. Fogos. Cornetas. Gritos, risos. Do meu quarto, longe da televisão, eu ouvia tantos gritos que sempre parecia que o Brasil está vencendo de goleada. Fui vencida. Larguei meus livros e fui ver o jogo.

Nessa segunda cinzenta, lá estava eu – mais uma vez – na minha cama. Eu quase nem lembrava do jogo: minha cabeça estava longe, nos slides que eu precisava fazer para uma apresentação, poucas horas depois.

Como eu ia chegar à UFRPE? Onde exatamente eu teria que descer do ônibus? Qualquer coisa mais realista do que o jogo do Brasil. Mas os sons ao redor não me deixavam pensar em mais nada. Levantei da cama, peguei o computador e fui até a sala. Entre um slide e outro, eu me voltava para a TV.

No prédio ao lado, a voz de Galvão Bueno chegava antes. Logo, os gritos de gol também. O silêncio explodia em alegria. Da minha janela, eu via outras janelas. E a alegria da vizinhança invadia minha casa.

Como a voz do Galvão Bueno.

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.

 

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