Um senhor de mais de 80 anos abre a pesada porta de madeira verde do casarão de paredes brancas que fica na Rua Joaquim Nabuco, nas Graças, Zona Norte do Recife. Funciona ali, no nº 331, um antiquário. O homem é ninguém menos que José dos Santos, o Zé Santeiro, para os íntimos e para os nem tanto, um dos maiores colecionadores de arte erudita e popular do Brasil.

O seu bom humor destoa um pouco da atmosfera sisuda do lugar. Em poucos minutos, a conversa deriva de História da Arte para causos da vizinhança. Morador antigo das Graças, criou os filhos vendendo arte. Era um tempo diferente. Ele reclama, colocando as mãos delicadamente em um oratório que deve ter ouvido muitos pedidos de milagre no século XIX: “Isso aqui está às moscas”.

Não é por conta disso, no entanto, que mudou alguma coisa em sua rotina: diariamente, das 10h às 14h, está lá no antiquário, sempre acompanhado de sua fiel escudeira – e secretária – Lindinalva Pinto Cunha.

Nascido em 1929, Zé Santeiro é gente de conversa agradável, característica que calha bem com a profissão de comerciante, que abraçou há cerca de sete décadas, quando, ainda no início da vida adulta, aos 17  anos, fez um curso de restauração de arte e assinou, sem saber,  contrato eterno com uma paixão pelos objetos que ajudava a conservar.

Mora numa rua das Graças relativamente movimentada, num belo casarão onde guarda as principais peças da coleção de 3 mil objetos, que inclui imagens de santos, pratarias e móveis, e mais uma infinidade de objetos de origem erudita e popular.

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Museu

Promessa de que iriam lhe dar um museu já ouviu muita, de governadores de todos os tipos, fãs de arte erudita ou não. “Estamos juntando peças há muitos anos porque a intenção é fazer um museu de arte sacra e como a gente também tem muita coisa da época dos engenhos, queremos fazer também sobre a história de Pernambuco. Temos peças de engenho de açúcar do século XVI, do século XVII. Tem peça de escravo, tem artesanato – os melhores que já foram feitos aqui”, diz.

Para ele, que começou a coleção portentosa com um Santo Onofre – “Dizem que é o Santo da Sorte” -, continuar tentando é o único caminho. Se seu sonho de construir um museu ainda não se realizou, ele olha para a própria estrada e agradece. “Graças a Deus eu sou um homem de sorte porque, na vida, um homem fazer uma coleção dessas só pode ser sorte”, diz.

A entrevista termina. É hora de voltar à companhia de Lindinalva e das peças do antiquário. O homem magro faz o caminho de volta até a porta para deixar a repórter ir embora. Não sem antes convidar para uma das famosas festas que a família dá, sempre em torno da cozinha e com obras  por todo canto. “Sorte é arte”, ela vai embora pensando.

Rua Joaquim Nabuco, 331 – Graças
(081) 3222-4078