Comemorando mais um ano nessa cidade tão linda e encantadora que me enche os olhos
e o coração de alegria. Com direito a sorrisos, grandes paixões, erros, acertos, lágrimas e quantas histórias pra contar.

Aprendi que a barraca da rua se chama fiteiro. Que o melhor queijo é o de coalho. Na pressa,
posso preparar um cuscuz no café da manhã ou no jantar.

O que Michael Jackson e as Graças têm a ver com o destino de Flavioleta

Que ao começar o ano devo tomar banho de ervas. Aprendi a arrumar meu cabelo com turbante. Novas gírias, novas ruas, novos bairros.

Reconheci que sentir saudades é possível e que não é difícil escorrer uma lágrima ao comentar sobre meus amigos e familiares. Nessa hora, o melhor a fazer é subir a Ladeira da Misericórdia e sentar pra comer uma tapioca com Seu Carlinhos e falar sobre a vida e sobre os sonhos do mundo.

Adotei um sotaque mequetrefe que fica no meio do caminho: nem mais sulista, nem tão pernambucano.

Abracei um gigante Baobá, cantei o Hino do elefante, as loas do Estrela e do Porto Rico,
senti meu coração estremecer cada vez que passei pela Rua da Aurora.

Rompi com meu preconceito quando dancei brega, salsa, maracatu, frevo e axé nas noites
e dias quentes. Fui à praia numa segunda-feira nublada com o desejo de ouvir aquele
barulhinho de mar.

Comprei mais livros e menos roupas. Vi que não é preciso ser magrela para ser linda. De
uma vez por todas, compreendi que beleza não tem a ver com educação.

Sofri mais de amor, peguei ônibus sem saber pra onde ia só para conhecer a cidade.

Conheci gente legal e gente chata. Aprendi a tocar um novo instrumento e esqueci como fazia no dia seguinte. Entrei nos restaurantes mais caros da cidade, mas gostoso mesmo foi aprender a chegar à Bodega na esquina de casa.

Achei independência suprema pegar ônibus sem pedir informação.

Gostei de entender que eu era educada demais para falar com algumas pessoas, mas gostei mesmo de saber que esse diferencial atraía outras tão verdadeiras quanto eu.

O máximo é ver que os amigos que me receberam quando desembarquei continuam junto
comigo, rindo de histórias de vacas sereias, cabras de batom e do “R” acentuado.

Criei desavenças e aprendi a me defender, entendi que o silêncio é, às vezes, a melhor resposta. Dei gargalhadas frenéticas com direito pedir tempo pra parar pra respirar.

Oito mudanças, seis bairros, duas cidades, dezenas e dezenas de amigos, algumas
paixões, seis anos, São João, Maracatu de Baque Solto, Maracatu de Baque Virado,
Caboclinho, Frevo de Bloco, Bacamarteiros, Mamulengo, Pastoril… Entre tantas histórias para contar, entre tantas ruas para andar, escolhi você, Recife, como meu lugar.

 

Flavioleta é contadora de histórias. Veio do Reino do Muito Muito Longe, no Paraná, para morar no Reino Encantando das Graças, onde adora passear pelas ruas cheias de árvores e dar bom dia aos vizinhos.