Um pouco caótico, um pouco pacato. Para o argentino Javier Martínez, 44, o bairro das Graças tem de tudo. Morando aqui há oito anos, o jornalista sente falta de ver mais céu – é um crítico da verticalização -, mas se admira ainda do “capital humano” do bairro.

Veja a conversa que o PorAqui teve com ele, mas, antes, dê uma passadinha pelo vídeo com fotografias que ele fez de cantinhos do bairro.  

 

PorAqui: Há quanto tempo você mora nas Graças e como foi parar no bairro?

Javier Martínez: Moro nas Graças há oito anos. Antes morava em Brasília, foi lá que me apaixonei por uma bela pernambucana e, quando nossa filha nasceu, decidimos vir para o Recife para estar mais perto da família dela. Eu sou argentino, a minha família mora em Buenos Aires (Argentina).

PorAqui: De onde vem sua paixão pela fotografia?

Javier Martínez: Pouco antes de deixar Brasília, comecei a fotografar, um pouco movido pela saudade que já estava começando a sentir, afinal foi mais de uma década morando na cidade. Andei muito pelas ruas e fui descobrindo o grafite.

A princípio, fotografava mais pelo exercício de registrar a arte urbana, mas, pouco a pouco, fui desenvolvendo um olhar amador (no sentido carinhoso mesmo). De lá pra cá, criei duas páginas no flickr (o Arte Urbana e o Meus Cliques), fiz alguns trabalhos como fotógrafo e fui finalista na categoria Fine Art/Amateur no 4th Annual Photography Masters Cup 2010 do International Color Awards.

PorAqui: O que te atrai e o que te repele no bairro das Graças?

Javier Martínez: O bairro das Graças é um dos bairros que mais gosto no Recife, um pouco caótico, um pouco pacato. Multifacetado, tem de tudo e tem um capital humano que me surpreende. Gosto muito da história que se respira em algumas ruas. Gosto dos oitizeiros e da vizinhança.

Faço tudo a pé ou de bicicleta. Recebo visitas sem prévio aviso e tenho tudo perto de casa: trabalho, escola da filha, família e amigos. Aqui formei minha banda Reggae Riff, que já tem sete anos. Além disso, participo da associação dos moradores e de outras ações no bairro, como o Café na Calçada.

O que não gosto do bairro é a presença constante e invasiva das buzinas, desnecessárias na maioria das vezes. Acho ruim a quantidade de cocô de cachorro nas calçadas. Não quero perder o capital histórico para a verticalização e os muros. Isso enquanto bairro, num olhar micro.

Se formos ver problemas estruturais, obviamente ninguém pode ficar indiferente à exclusão social e à quantidade de gente em situação de rua ou encarar estoicamente os engarrafamentos homéricos, conviver com a insegurança ou os alagamentos em dias de chuva. Sei que isso não é exclusividade das Graças.

PorAqui: O que te inspira no cotidiano para que você repare nos detalhes do bairro?

Javier Martínez: Costumo fazer recortes, a gente não tem horizonte nas Graças, isso era um presente que eu tinha em Brasília. Me inspira dar um sentido às coisas, passar alguma mensagem. Mostrar o que é lindo de se ver e denunciar também.

Uma característica da minha fotografia é a ausência de gente, sou muito tímido e não consigo chegar nas pessoas e pedir permissão para tirar fotos. Além disso, se falar antes do clique, a pessoa deixa de ser espontânea. Se falar depois do clique, a pessoa já foi retratada e pode achar isso invasivo.

Clico esse universo de coisas e, mesmo assim, quando tem gente por perto, às vezes nem faço a foto. Costumo clicar nos finais de semana. Gosto de ser eu e o momento.


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