Era uma casa muito engraçada. Não tinha teto, não tinha nada. A canção infantil é um resumo perfeito do que ocorre atualmente nos endereços de número 625 e 629 da Av. Rosa e Silva, nas Graças, Zona Norte do Recife.

Modernistas, projeto do arquiteto Augusto Reynaldo, morto em 1958, as casas têm paredes azulejadas (agora cobertas por inúmeras pichações, não existentes quando o PorAqui esteve lá da última vez, em fins de outubro de 2017), paredes levemente inclinadas, móveis embutidos  de época e uma arquitetura pouco vista pela cidade do Recife – ainda menos atualmente.

Não tinha nada

Telhas arrancadas, pichações por todo canto, pedaços da casa à venda em ferro-velho de Olinda, escada de concreto com degraus destruídos… Os imóveis especiais de preservação não podem ser demolidos – são protegidos por lei, é o que informa o arquiteto da Fundaj Rodrigo Cantarelli.

Curador de arte encontra peças das casas modernistas em ferro velho

Azulejos, concreto e destruição. (Foto: Paula Melo/PorAqui)
Um banheiro verde-tristeza (Foto: Fabiana Moraes/Colaboração)

Nesta sexta (2), o PorAqui esteve por lá novamente e encontrou Fabiana Moraes, jornalista, e Leonardo Cisneiros, professor. Eles organizam juntos um ato que acontece amanhã, sábado (3), com oficinas, palestra e café da manhã coletivo, em frente às casas, a partir das 9h.

Provavelmente por conta do evento criado no Facebook para o protesto, acreditam que estão colocando tapumes nas casas a mando do proprietário ou da Prefeitura. Havia funcionários no local durante todo a sexta.

Veja vídeo com a entrevista com Fabiana Moraes e Leonardo Cisneiros:

Repúdio

Nesta semana também, o Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco publicou uma moção de repúdio à destruição das casas modernistas da Rosa e Silva em que denuncia o descaso do proprietário dos imóveis, Sr. Leonardo Teti. Veja a nota completa abaixo:

Moção de Repúdio à Destruição das Casas Modernistas

O Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco, órgão colegiado vinculado à Secretaria do Estado, manifesta Moção de Repúdio à destruição criminosa a qual vem sofrendo os imóveis números 625 e 629 da Avenida Conselheiro Rosa e Silva, na cidade do Recife.

Os referidos imóveis, projetados em 1958 pelo arquiteto Augusto Reynaldo e conhecidos como Casas Modernistas, se inseriram de forma marcante na paisagem recifense e, além de serem exemplares representativos da escola pernambucana de arquitetura moderna, são também importantes testemunhos de sua época e dos modos de vida a ela associados. Por esses, e tantos outros valores, as duas edificações foram consideradas em Imóveis Especiais de Preservação, pela Prefeitura do Recife, através do Decreto nº 28.823, de 20 de maio de 2015.

No entanto, esta ação não foi suficiente para evitar que os imóveis, ao longo desses três últimos anos, tenham sido sistematicamente degradados à olhos vistos e à revelia de uma legislação que os protege. Nos últimos meses foram retiradas quase todas as suas esquadrias e grades, sendo também destruídos e pichados bens artísticos integrados à arquitetura. No último dia 27 de janeiro, os telhados das duas edificações foram inteiramente removidos, deixando-as quase arruinadas e numa situação de total fragilidade à ação de intempéries.

Este Conselho, que defende uma gestão compartilhada entre o Governo e a sociedade civil na preservação do Patrimônio Cultural em Pernambuco, solicita informações à Prefeitura do Recife sobre as medidas tomadas objetivando preservar a integridade dos imóveis e repudia o descaso do proprietário dos imóveis, Sr. Leonardo Teti, no cumprimento das suas obrigações legais em zelar pela integridade dessas edificações, reconhecidas oficialmente como parte do patrimônio cultural recifense.

Proprietário

O PorAqui está tentando contato com o proprietário dos imóveis, Leonardo Teti de Carvalho. Da última vez que falamos com ele, em outubro de 2017, ele comentou que as casas estavam alugadas. Sobre  permitir a depredação do próprio patrimônio, desconversou e desligou o telefone.

Em novembro do ano passado, a Justiça de Pernambuco determinou que Leonardo fizesse a recuperação das edificações, resgatasse as características originais das construções e impedisse a depredação das antigas moradias. Relembre aqui, em matéria do JCOnline.

Como pontou o JCOnline, Leonardo é réu nas duas ações de iniciativa da Procuradoria do Município, uma referente à edificação de número 625 e a outra para a casa 639. Um prazo de 30 dias foi determinado, na época, para o cumprimento das medidas, em relação ao imóvel 625, com descumprimento passível de multa de R$ 2 mil por dia.

Também na época, foi anunciado ainda que o município também iria pedir a multa de igual valor, em caso de não cumprimento para o imóvel 639.