9 horas da manhã.
– Oi, bom dia. Tem croissant de quê?
– Frango e misto. Tá atrasada hoje de novo?
Dou de ombros.
– Você parece outra cliente que eu tenho aqui. Ela já chega pedindo café quando entra no estacionamento. Você vai comer aqui ou na parada de ônibus?
– Na parada.
– Que coisa feia, comer na rua. E cadê aquele menino que vem sempre contigo? Teu marido?
– Meu namorado! Ele não mora aqui comigo.
– Ele só pede massa. Toda vez. Sempre a mesma coisa.
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Caio na risada. Ele realmente é um cara de hábitos. E eu também.
– Eu pensei que tu estudava na faculdade aqui.
– Que nada, estudo na Federal. Faço mestrado.
– E tua aula é de que horas, pra tá atrasada desse jeito?
– 8h30
– Pega logo esse negócio e corre que tu tá atrasada!
Eu pego o croissant e como na parada. Com maionese extra e um sorriso no rosto.
No Uber, voltando pra casa.
– Moço, o senhor devia ter virado aqui!
Eu falo, percebendo que o motorista não tinha virado na Rui Barbosa.
– Eita. Me desculpe. Mas eu sei um retorno fácil fácil.
Fico apreensiva, mas ele realmente sabia um retorno fácil fácil.
– Sinceramente, eu nem sei como eu sei esse retorno. Esse bairro é confuso demais.
Me peguei pensando quantas vezes – antes de morar aqui – eu havia pensado o mesmo.
– O senhor mora por aqui perto?
– Não, sou de Olinda.
– Se algum dia o senhor morar por aqui, acredite… vai se acostumar.
Quem diria…

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.

 

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