Eu demorei para conhecer as Graças.

A única coisa que eu sabia era que meu psiquiatra era na Rua das Pernambucanas. Mas saber qual bairro que era, isso eu não sabia. Criada em Jaboatão, a “Zona Norte” era um grande bolo de coisas. As divisões todas eram confusas, as ruas pareciam nunca acabar, tinha muita árvore no meio do caminho.  

Graças old school: a vida de quem cresceu no bairro nos anos 80 e 90

Ano passado, comecei a dar aulas de inglês na Cardeal Arcoverde e na Rua das Pernambucanas. E me apaixonei.

Talvez eu tenha me apaixonado pela torta de cebola da – falecida – Tortaria. Ou pelas árvores da Rua da Amizade. Ou pela distância até a UFPE (e o ônibus CDU/Caxangá/Boa Viagem, com ar-condicionado, logo ali na Joaquim Nabuco).

Ou pelo vento que bate no rosto durante a tarde. Ou a quantidade de restaurantes que eu posso escolher pelos aplicativos de delivery de comida.

Ou a curta distância até o Sebo da Torre. Ou o Museu do Estado – que eu nunca visitava, achava longe demais – ser meu vizinho. Ou a quantidade de pokestops (pois eu ainda jogo Pokemon Go).

O prédio mais curioso da Rua das Graças (Foto: Heloiza Montenegro/Colaboração)

Sempre primavera

Acontece que eu coloquei as coisas num caminhão de mudança e, em junho, me mudei de vez para esse território que – até um ano atrás – era só o endereço do meu antigo psiquiatra. E percebi que aqui, nas Graças, a primavera é primavera mesmo, com flores pelo caminho.

Percebi que as pessoas ainda dizem boa noite para pessoas aleatórias em plena Rosa e Silva. Percebi que as padarias daqui são as melhores. Que decidir onde jantar na Rua do Futuro é um supremo desafio. Que o cinema do ETC é o melhor programa para as segundas após a aula.  

E percebi que existem histórias para contar, lugares para ver e árvores para desviar. E é isso que eu pretendo fazer.

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.