Acho que o primeiro foi no fim de semana do meu aniversário, cedinho. Ouvi latidos (acho que era um bloco para Pets!), ouvi frevo. Era o primeiro deles, passando pela minha janela e me lembrando que o Carnaval estava logo ali.

(Na verdade, eu nem precisava do bloco para me lembrar. Minha mãe costuma contar que, quando estava grávida de mim, o médico sempre deixou claro que eu poderia nascer em qualquer dia de Carnaval: menos no Dia do Galo. Se eu resolvesse nascer no Dia do Galo, ele não estaria no meu parto. Minhas festas são sempre divididas entre as prévias do fim de semana)

6 lugares onde você pode me encontrar nas Graças e arredores

No domingo, enquanto voltava de um almoço, eu vi o “Eu acho é Graça”, ainda na concentração. Esperei alguns minutos. E lá estavam eles, cruzando a esquina da Rua das Pernambucanas com a Rua das Graças. E o som invadia meu quarto como um baile. Eu gravava vídeos, enviava para a minha irmã que não mora mais no Recife, acompanhava cada detalhe – distante, mas presente.

Ao som dos clarins de Momo

Nesse sábado, mais uma vez, eu fui acordada pelo frevo. Não sei qual era o bloco, eram poucas pessoas. A esquina era a mesma, o porta-estandarte estava animado. E no domingo, os sons dos poucos carros na rua se misturavam com “O Jacaré da Beira-Rio”.

E mais blocos foram acompanhados da janela do meu quarto – inclusive enquanto eu mesma me arrumava para seguir o bloco que havia escolhido. E eu, que passo o dia inteiro ouvindo música, deixei os sons das ruas invadirem o meu espaço. Entre as velhas marchinhas, hinos de times, batuques e melodias, o Carnaval chegou no bairro das Graças. E eu assisto de camarote.

?Não me diga mais quem é você/Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr ? (Noite dos Mascarados, Chico Buarque)

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.