Dentre os meus talentos, acho que o que todos vão lembrar quando eu for embora deste mundo é minha capacidade de cair/tropeçar/torcer o tornozelo em absolutamente todos os lugares do mundo. Ao correr para pegar um ônibus, ao descer do ônibus, caminhando na rua, cozinhando em casa, tomando banho.

Eu faço parte – ou deveria fazer, caso isso efetivamente existisse – do seleto clube de “torcedores de tornozelo” mais assíduos.

Amigos irão fazer anedotas no jornal sobre minhas quedas. A frase “torcer o tornozelo” irá se transformar em um verbo: “heloizar” (entre as minhas amigas, esse verbo já existe a algum tempo).

Graças para iniciantes: entre histórias, lugares e árvores

Desse modo, morar nas Graças mostrou-se um desafio. Um enorme desafio.

A Rua do Futuro, a Rua da Amizade e a Conselheiro Rosa e Silva são minhas maiores inimigas. Me acostumei a, sempre que vejo uma árvore na rua, esperar que meu namorado passe na frente, ceda a mão e me ajude a passar.

Tem uma árvore ao lado do meu prédio que, por muitas vezes, tive que escolher entre 1. Ser possivelmente atropelada por um carro ao desviar pela rua ou 2. Tentar contorná-la e correr o risco de tropeçar. Não me orgulho em dizer que, normalmente, a opção 1 é a escolhida.

Rua que eu sempre esqueço o nome, mas é transversal da Rua Amélia (Foto: Heloiza Montenegro/Colaboração)

Mas não me entendam mal. Eu sou entusiasta das árvores. Elas me acompanham por toda a vida. São personagens das minhas histórias (mas ai já é coisa pra outro post…). Mas não, não estava acostumada com elas na minha vizinhança.

Não estava acostumada com a imponência, com suas raízes pelos caminhos. Com a grandiosidade e seus rastros de folhas pelas ruas. Não estava acostumada em observá-las, em tê-las tão perto de mim. Tampouco em parar no meio da rua só para admirar aquela árvore gigantesca numa das transversais da Rua Amélia, aquela que eu esqueci o nome.

E, por sorte, não esqueci meus tornozelos em nenhuma delas ainda.

Esquina que parece filme Noir, mas é só o efeito da foto (Foto: Heloiza Montenegro/Colaboração)

Obs.: o que não significa que eu não tenha caído ainda aqui nos arredores. Já aconteceu. Em agosto. A mancha no joelho permanece viva e bem, para quem tiver interesse em perguntar.

 

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.