Por Geylla Lira

O transporte fluvial é uma prática comum entre moradores da Torre e da Jaqueira. Há 85 anos, a família de Zomildo Tomé Parangaba, o seu Mita, tem a responsabilidade de atravessar pessoas de um bairro a outro pelo Rio Capibaribe.

A tradição, que já dura quatro gerações, começou com Manoel Bala, avô de seu Mita, em 1942, no conhecido Porto do Bote, localizado no final da rua Frei Jaboatão, na Torre. Seu avô remou até passar dos 80 anos, quando já estava completamente cego e usava apenas o tato para manejar o barquinho.

Hoje em dia, Marquinhos, filho de Zomildo, é quem atravessa as pessoas no bote Samaritana, que funciona das 6h da manhã às 20h da noite. Cada viagem custa R$ 1,25.

Bote!

Se estiver no bairro da Torre, é só entrar no barquinho. Mas caso o passageiro se encontre na Jaqueira, no ponto localizado em frente ao Colégio Núcleo – próximo ao Parque da Jaqueira -, basta gritar “bote!”, que Marquinhos vai lá buscar.

Além de Marquinhos, Amilton também faz a travessia no barco Samaritana. Mateus Barbosa tem 13 anos e atravessa o rio todos os dias para ir ao colégio. Ele comenta que o transporte é bem mais rápido que carro ou ônibus. “Não dá pra andar tanto para ir à aula. O bom é que para atravessar é bem fresquinho”.

Mita diz que não consegue contabilizar a quantidade de pessoas que utilizam seu transporte diariamente, mas que, embora tenha um táxi, o rio é a sua fonte de renda.

Foto: Geylla Lira/Pelas Ruas

O ponto do barco de seu Mita fica exatamente entre as pontes da Rua Amélia e da Rua José Bonifácio, que ligam os bairros. Uma verdadeira mão na roda para não gastar tanto tempo durante o trajeto, além de não poluir o meio ambiente.

Seu Mita também faz passeios de barco para o bairro de Dois Irmãos e o Marco Zero. Com pesar, Zomildo lembra da infância no local. Antes, sua casa era bem na margem do Porto do Bote.

Boto no Capibaribe

Ele lembra que o rio era bastante limpo e passava o dia inteiro nadando. Hoje, não põe o pé na água. Mita diz que pegava siri e camarão do Capibaribe para cozinhar na beira do rio com amigos e clientes próximos. “Já vi boto nadando aqui. Hoje em dia, a gente vê muita capivara, que não tinha nesse ponto, e jacaré. Eu nunca tinha visto jacaré aqui”, explica.

Quando fala do Porto, Mita esboça sorrisos o tempo todo. “Às vezes, eu tô sem fazer nada, me arrumo e minha mulher pergunta onde eu tô indo. Venho aqui todos os dias. Já passei por um bocado aqui”, comenta.

Além do atalho entre os bairros da Torre e Jaqueira, existe outro entre a Iputinga e o Poço da Panela.

Um barquinho escondido que atravessa o Capibaribe por R$ 1

 

Contar histórias dos bairros do Recife, sobre suas tradições e até sobre aquilo que ninguém vê. Foi pensando nisso que alunos do 6º e 7º período de Jornalismo da FBV criaram o projeto Pelas Ruas, que você pode acompanhar PorAqui.