Na última reportagem da minissérie de Volta às Aulas, sobre mobilidade a caminho da escola, conversamos com a psicóloga Edna Granja, pesquisadora no campo de gênero e masculinidade, sobre um ritual que anda meio esquecido: ir para escola sozinho. O PorAqui conta também a história de Lua, moradora do bairro, que começa a desbravar o mundo aos 10 anos de idade.

Lua

Para quem foi criança há mais de quinze anos, ir para escola sozinho ou sozinha era uma espécie de marco, uma passagem da infância para a pré-adolescência, uma responsabilidade sonhada e, para a grande maioria, posta em prática sem muitas dificuldades. 

Mas, para a geração millenium, que nasceu depois dos anos 2000, esse ritual está cada vez mais sendo deixado de lado. "É muito difícil para pais e mães verem suas crianças irem para escola ou desenvolvendo outras atividades sozinhas. A gente tem uma tendência a infantilizar mais do que o necessário nossas crianças, então o que a gente fizer  pra estimular práticas de autonomia vai favorecer o amadurecimento cognitivo e emocional. Essas práticas devem ser desenvolvidas em condições de segurança pra que se sintam fortalecidas", diz Edna. 

Era fim de 2016 quando Lua começou a pedir ao pai, Ivan Moraes, para ir sozinha para a escola, que fica a menos de 500 metros da casa paterna. Eles então bolaram uma estratégia: a cada dia, Lua ia um pouquinho mais longe, sempre sob as vistas do pai ou da madrasta, Daiane. 

“Começamos deixando ela na esquina mais perto da escola. Depois, na frente da padaria, do curso de inglês, cada vez mais distante, até ela ir sozinha”, contam. “Ela já conhece os taxistas, os porteiros dos prédios, encontra amigos indo pra escola”, diz Ivan, que é vereador no Recife pelo PSOL e entusiasta do bairro. 

“Eu acho importante Lua se empoderar da cidade, ter essa independência. Além disso, é muito importante ocuparmos a rua”, fala. Ivan conta que sempre dedicou-se a ter conversas com a filha que estimulassem sua individualidade e cidadania.

Edna Granja reforça que a rua e os espaços públicos são, por excelência, um território masculino e, no caso das crianças, terminam sendo dos meninos também. 

"É comum perceber que funções que dialogam com a rua, como comprar um pão, são geralmente designadas aos meninos, enquanto as tarefas que dialogam com o espaço privado, como varrer uma casa, dialogam mais com as tarefas designadas para as meninas. É preciso fazer com que as meninas compreendam que o espaço da rua também é delas e também pode ser seguro, dependendo das estratégias que forem construídas", finaliza Edna, para quem o ritual é importante na construção da autonomia de crianças de ambos os sexos.

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