Lailson de Holanda, recifense, 64 anos, cartunista, ouvinte. Um dos desenhistas mais renomados do Estado sempre acreditou que precisava retribuir, de alguma forma, o talento que recebera. Não sabia como até encontrar Débora Carneiro, ouvinte, intérprete de LiBras, em uma sala do mestrado em Ciências da Linguagem da Universidade Católica de Pernambuco.

Foi então que surgiu a ideia de prepararem um aula de desenho para as crianças surdas de duas salas especiais da Escola Governador Barbosa Lima, nas Graças, Zona Norte do Recife.

O momento, por si só, já seria especial, mas imagine um artista tão generoso quanto Lailson, uma garota tão apaixonada pela causa quanto Débora, duas professoras de surdos, Dayse Holanda, bilíngue, ou seja, ouvinte e falante de LiBras, e Adriana Uchôa, que é surda e comanda, sozinha, uma turma do 5º ano, todos em uma sala com 12 crianças e adolescentes surdos.

Agora imagina uns olhinhos que não piscaram um segundo. Imagina um milhão de perguntas feitas em LiBras sobre o que o mestre ensinava. Imagina você tentando se comunicar e quase todos os presentes entendendo perfeitamente. Não, você não sabe o que é isso, pois, provavelmente, você ouve bem e fala português.

É como se, pela segunda vez, o PorAqui presenciasse surdos adquirindo superpoderes na Barbosa Lima. Lembra da história de Bia? Dessa vez, Lailson usou a linguagem universal do desenho para se comunicar com eles. “LiBras é uma língua. Desenho é uma linguagem, que fala em qualquer parte do mundo”. Foi assim que ele começou a aula, numa manhã ensolarada de fins de novembro.

A garota invisível que adquiriu superpoderes com uma prova de Enem

Mostrava, com slides, desenhos antigos, modernos. Os olhos continuavam sem piscar. Mostrou um desenho de homens das cavernas, uma mão contornada com tinta numa pedra, explica: “É um desenho que é uma palavra: pode significar ‘mão’, ‘eu’, ‘eu estava aqui’. Muda o tempo, mas o desenho é compreensível para todos”, explica, da “plateia”, mãos se levantam cheias de significado e dúvidas. As duas intérpretes iam dando conta do recado, enquanto Adriana era a assistente do cartunista, passando os slides.

Talento

Um par de olhos, no entanto, parecia captar rapidamente o que o professor falava. Talvez nem precisasse de intérprete de LiBras. O desenho parecia lhe falar diretamente. Era Thalita Mirely de Souza, 14 anos. Puxo Débora para ser nossa interlocutora, ela acaba conduzindo a entrevista por mim.

Thalita vai falando o quanto gostou da aula (e eu perdida olhando de um lado para o outro sem nada entender), do quanto se identificou com Lailson – ela mesma, uma desenhista talentosíssima -, falando, orgulhosa, dos elogios que recebe (enquanto eu me sentia como se tivesse sido deportada para a Hungria). Ela quer ser designer – e eu talvez deva aprender LiBras. E a desenhar também, porque de palitinhos e bolinhas o inferno está cheio.

Veja vídeo sobre essa manhã na Escola Governador Barbosa Lima: