Eu acho que todo recifense – ou toda pessoa que, mesmo não morando no Recife, depende da cidade – sente-se refém do trânsito.

É quase afetivo, para ser sincera. Essa dependência doentia, o stress, a zoada. E o constante estranhamento quando o inverso acontece: cadê meu trânsito que estava aqui?

LEIA TAMBÉM:

Os espaços incompletos de toda cidade: eu os vejo

Eu sou dependente da Rui Barbosa. Andando, subindo, descendo. Todos os meus caminhos me levam até lá. Ou me desovam lá no meio do caos. Como constante passageira do Rui Barbosa – Dois Irmãos (sempre nos piores horários), existe uma cumplicidade que nasce na primeira parada da UFPE e só se parte na “entrada” da Rua das Graças. Para recomeçar na volta para casa, no dia seguinte.

Dia desses, enquanto caminhava com minha mãe, me deparo com a Rui Barbosa vazia. Um carro aqui, outro carro ali.

Que lugar era aquele?

Não conseguia parar de lembrar de um artigo para a faculdade, onde eu explico o que é distopia e utopia. Como esses conceitos dependem do observador.

A utopia do motorista, ao encarar toda Rui Barbosa livre era a minha distopia. Um mundo paralelo que não cabia na minha mente.

Eu fecho os olhos e imagino as buzinas. O barulho. A bagunça. Me sinto calma. Daqui a pouco as férias acabam e tudo volta ao normal.

Ao normal?

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.

 

Os conteúdos publicados no PorAqui são de autoria de colaboradores eventuais e fixos e não refletem as ideias ou opiniões do PorAqui. Somos uma rede que visa mostrar a pluralidade de bairros, histórias e pessoas.