Era o ano da graça de 1989, mas bem que podia ser o ano da farra – ou anos. Fim da década de 1980, início da de 1990, as Graças, na Zona Norte do Recife, fervia mais que panela de caranguejo.

Cerca de 40 bares dividiam os quilômetros quadrados do bairro. Se hoje temos a Associação por Amor às Graças, há cerca de 20, 30 anos, havia a Associação de Bares das Graças, cujo vice-presidente era Bode Valença, um dos sócios do Clube da Farra, e que conversou com o PorAqui dia desses. Vem ver essa história!

Graças old school: a vida de quem cresceu no bairro nos anos 80 e 90

“Eu, meu primo Rubens Valença, André Araújo, que hoje é dono do Biruta, Rodrigo Gomes e Márcio Bastos, todo ano colocávamos bar no Carnaval de Olinda”, conta Bode. “Era um bar muito frequentado por jornalistas, intelectuais e muitos artistas. Alceu, Tim Maia, Luiz Melodia, Moraes Moreira e os artistas da terra: Nena Queiroga, André Rio…”

Farra nas Graças

Pra virar um bar mesmo, foi um pulo. Começaram a procurar uma casa nas Graças, até que encontraram uma na Rua Aníbal Falcão. “No quintal, tinha um piscina, daí porque o nome ‘clube'”, relembra.

O diferencial do bar eram os “serviços” que oferecia: o CrediFarra, a AmbuFarra e o “quarto pra bebo”. Pera que você já vai entender.

“Na época, praticamente não existia cartão de crédito, a gente inventou o CrediFarra: você se associava ao Clube da Farra, como se associava a qualquer clube, recebia uma carteirinha e podia beber sem dinheiro. Ficava no seu nome, no final, você ia lá e pagava”, diz.

“A gente criou também a AmbuFarra. A gente tinha uma Kombi para fazer as compras. Essa Kombi, de madrugada, ficava levando os bebos pra casa. A gente já tava preocupado com Lei Seca, né?”, conta rindo.

Sem falar no quarto pra quem tivesse pra lá de Bagdá se recolher. Segundo Bode, o lance era descansar mesmo. “Do jeito que subia, não conseguia nem descer”.

Por esses motivos, foi que um dia se depararam com o Clube da Farra notícia no The New York Times. O recorte de jornal está perdido,  mas a fama era tão certa que virou até frevo pelas mãos de Antônio Fernando e cantado por Lula Queiroga:

Eu sou do bloco do Clube da Farra
Eu sou joia rara, um mico leão
Eu sou da gangue do Clube da Farra
Um meliante doido cheio de paixão
Graças à noite é sempre Réveillon
O bode berra pros pássaros

(…)

Mas os vizinhos não gostavam nada

Para quem morava nas Graças, era um incômodo muito grande. “Foi um polo, né, tipo Polo Graças, como no Rio tinha o Baixo Gávea, vamos supor que fosse o Baixo Graças. Eram 23 bares só naquela ‘ilhazinha’ das Graças – Rua das Pernambucanas, Rua das Graças, Rua da Amizade…”, fala Bode.

“Aí João Braga, que hoje é secretário na Prefeitura, era morador lá e criou o movimento contra os bares, mas direcionou pro Clube da Farra, já que o nome do movimento era ‘Abaixo o Clube e outras farras‘.”

O dia em que Ronald McDonald recebeu a chave do Recife

Mas não foram só as reclamações do moradores que ajudaram a acabar com a farra no clube. O negócio, que tinha fila na porta, não era rentável: o tal do CrediFarra dava um prejuízo enorme. “O bar não reajustava pela inflação, cobrava o preço da garrafa”. Aí já viu, né…

Em 1994, o clube fechou as portas. Chegou a funcionar um tempo na Rua da Guia, no Recife Antigo, onde hoje é o Bar Mamulengo e, coincidência!, ao lado da Redação do PorAqui, mas acabou fechando também. 

Sanatório Geral,  Depois do Escuro, Cantinho das Graças, Som das Águas, El Bodegón, Bar do Francês, foram bares que existiram nas Graças nessa época e que surgiram na conversa, mas você lembra de mais algum? Conta pra gente nos comentários!