Eu sou dependente do transporte público desde que eu me entendo por gente. Lembro de quando eu era pequena, com uns 10 anos, pegava dois ônibus sozinha, para voltar dos treinos de ginástica artística (ah, os tempos são outros!). Eu pegava ônibus pra qualquer coisa: escola, shopping nos fins de semanas, visitar minha avó, ver meus amigos.

O tempo foi passando e as distâncias só aumentaram: do estágio no bairro dos Coelhos, da faculdade na Cidade Universitária, os bares do Recife Antigo, o bacurau do Carnaval (sempre uma péssima experiência).

Tanto que uma das razões para ter escolhido as Graças como lar foi o fácil acesso aos ônibus. Com uma caminhada até a Agamenon, eu consigo chegar em qualquer lugar. Ou, em alguns casos, nem preciso ir tão longe.

Os espaços incompletos de toda cidade: eu os vejo

Ali onde a Guilherme Pinto e a Joaquim Nabuco se encontram, eu vou para a UFPE. Um pouco mais a frente, seguindo pela Guilherme Pinto, eu vou para Boa Viagem e quase chego até o meu antigo bairro.

Vez ou outra, eu ainda dou a sorte de ir sentada. Um pouco mais raramente eu encontro algum rosto conhecido para me fazer companhia na viagem. Quase sempre – sorte a minha – alguém se oferece para pegar minha mochila.

Eu vejo a poesia dos espaços em movimento. Acompanho a rotina das pessoas pela janela. Observo – quando não estou com um livro enfiado na cara ou algum texto que devia ter lido, mas não tive tempo – as movimentações dos passageiros.

Alguns eu já até sei onde vão descer, só de olhar para a roupa ou a farda de trabalho. Eu vejo a poesia do caminho da minha casa até a parada. As ambulâncias entrando e saindo. Os carros buzinando. As pessoas indo para as aulas. Os mais sortudos que conseguem se locomover de bicicleta pelos carros. Os super sortudos que conseguem pegar o ônibus assim que chegam na parada.

E uma certeza eu posso ter: se eu consigo ver poesia no transporte público do Recife, eu devo ver poesia em QUALQUER LUGAR.

 

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.

 

Os conteúdos publicados no PorAqui são de autoria de colaboradores eventuais e fixos e não refletem as ideias ou opiniões do PorAqui. Somos uma rede que visa mostrar a pluralidade de bairros, histórias e pessoas.