Com a chegada do ~ inverno ~, os dias andam esquisitos. Mais claros e mais escuros, mais quentes e mais frios. Um vento esquisito invade a sala, a chuva molha o corredor do prédio. São sinais da natureza. E esses sinais me lembram que, um ano atrás, eu visitava o apartamento pela primeira vez, via minha mãe ir no cartório, bancos, resolvendo as burocracias da nossa mudança.

A chuva me lembra meu aniversário, em janeiro. Das festas ao ar livre interrompidas pela chuva, dos amigos que moravam longe e não conseguiam chegar – por causa da chuva e de todo o caos que ela traz consigo. A chuva me lembra minhas viagens, todos os países que eu carreguei a chuva comigo ou aqueles que já carregavam a chuva em si. Chuva me lembra a Irlanda, que me ensinou a nunca usar sombrinha – hábito que eu meio que carrego até hoje.  Chuva me lembra de tirar as roupas de perto da janela.

Os espaços incompletos de toda cidade: eu os vejo

E chuva me lembra que, em menos de um mês, eu comemoro um ano morando nas Graças.

Essa memória, vem junto com a chuva e com o estranho inverno recifense: lembro do medo da chuva no dia da nossa mudança.  Também lembro das caixas espalhadas pela casa e como minha rotina virou de cabeça pra baixo de uma hora pra outra. Onde estavam meus livros? Minhas roupas? Minha vida?

Encontrei tudo. Livros, roupas, vida. As caixas que ocupavam todos os espaços foram embora. Encontrei um novo bairro, uma nova rotina, um novo pequeno universo.

Veio com a chuva. Mas – como tal – não foi embora. Ficou como o sol: esse a gente garante por todos os dias.

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.

 

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