Dizem – não me perguntem de onde veio essa frase – que ninguém entra duas vezes no mesmo rio: a pessoa muda, o rio muda. Eu mesma vivo mudando: cabelo, estilo de roupas, hobbies. Um pouco aqui, um pouco ali.

E, como todos já sabem, mudei de casa/bairro/cidade há um ano.

Acontece que as mudanças que nunca acabam também envolvem mudanças de endereço: uma coisa aqui, outra ali. Uma lâmpada que queimou, um chuveiro que precisa ser trocado, um papel de parede que fazia todo sentido um ano atrás e não combina em nada com o que restou esse ano (história real). Um lar é uma eterna construção. Um turbilhão de mudanças.

Eu, por exemplo, passei um ano para conseguir ficar feliz com meus livros.

Veja: eu aprendi que, para um colecionador, o objeto mais importante é sempre o próximo. É o meu caso com livros. O próximo livro vai ser sempre o mais importante da minha vida (mesmo que não seja). E agora eu moro perto dos lugares certos: posso ir na Toca Disco comprar meus quadrinhos, posso ir na Livraria da Jaqueira vasculhar as prateleiras, posso ir no Sebo da Torre me perder entre os mil livros e me sentir um pouco Indiana Jones no meio das descobertas.

Enfim, livros são importantes demais para mim. Antes, sem espaço, eles se espalhavam pela casa. Eu não os via quando acordava. Era uma mudança em relação ao que eu estava acostumada. Mas – acontece nas melhores famílias – não era uma mudança que eu estava aceitando tão bem assim.

Essa semana, um ano depois, mudei tudo. Mais uma vez (acho que a terceira vez no ano!). Lá estão eles. Meus livros, meus bonecos, meus objetos. Eles que me pertencem e eu que pertenço a eles. Vivos, me olhando. O que eu sentia pelo bairro – o sentimento de lar – chegou até o meu quarto: começou de fora dos portões do meu prédio e agora entrou pelas janelas.

 

Heloiza Montenegro, novata no bairro, pode ser encontrada com a cabeça enfiada num livro, dormindo em um ônibus ou tomando chocolate quente. Ou escrevendo para o seu blog Em 365 dias.

 

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