O escritor cearense Sidney Rocha, que recebeu o Prêmio Jabuti por seu livro de contos O Destino das Metáforas, já trocou de CEP algumas vezes desde que veio morar no Recife, aos 17 anos (hoje tem 51). Atual morador da R. Amélia, já viveu na R. das Ninfas, na Saudade, na Soledade, na R. do Progresso, entre outras.

Para ele, que veio de Juazeiro do Norte — onde as ruas tinham nome de santos que depois deram lugar a homenagens políticas — o Recife parece aplacar um pouco a sede de poesia cotidiana, apesar de padecer do mesmo mal. Isolando as Graças no microscópio, ele vê um bairro que vive sob um manto de tranquilidade, quando, na verdade, o que existe é o caos do trânsito, da especulação imobiliária e da violência. 

Seu último livro, Fernanflor, foi lançado em 2015 e é a primeira parte de uma trilogia. O segundo volume será publicado em 2017.

Confira o que Sidney Rocha falou com exclusividade ao PorAqui:

PorAqui: Você é cearense, de Juazeiro do Norte, e chegou ao Recife muito novo. Qual a primeira impressão que teve ao constatar que o nome de ruas, em boa parte deles, são um convite à poesia? De alguma forma, essa característica do Recife te inspirou a escrita?

Sidney Rocha: O bairro das Graças é um pequeno Brasil, com seus problemas, suas necessidades, seu sabor de vidro e corte, e um escritor não fica impune a seu bairro, sua aldeia, sua casa, seu quarto. Pode-se construir 20 mil livros, um para cada alma das Graças, sentado não à porta da igreja, mas da Capela (a padaria), se a especulação imobiliária não a houvesse fechado.

PorAqui: Como em seu premiado livro O Destino das Metáforas, que talvez traga a morte como destino delas, as ruas do Recife, muitas – com seus nomes delicados, ainda que tristes ou poéticos – também fazem da degradação o destino das metáforas, ou seja, seu atropelo e agonia, apesar do lirismo?

Sidney Rocha: A morte está em todos os lugares onde está a vida. Sem parecer um simples jogo de palavras, quero dizer que morte e vida são uma única rua. Contudo, não é a morte quem vence. É sempre a vida. Não é a morte a nossa senhora da Memória, mas a vida a nossa senhora da Graça.

PorAqui: Como morador das Graças, há alguma espécie de alegria ou acalanto em andar por ruas como a do Futuro, das Graças, da Amizade, das Creoulas, das Pernambucanas? Você, como escultor de palavras, sente tais nomes reverberarem no cérebro, como uma poesia que está lá, queira ou não?

Sidney Rocha: Não tenho carro. Ando a pé pelo bairro. O Recife é uma cidade sem calçadas. Daqui não vejo nem a baía nem o beco. Nas Graças, se inventou uma forma de se negar e cegar para os problemas: a ideia de se viver sob um manto de tranquilidade. Assim, o cidadão do bairro acredita mesmo que está vivendo numa ilha de tranquilidade e nobreza. 

Esse habitante sedado dos prédios, do bairro, talvez esteja satisfeito com o “mimo” que é a ciclofaixa domingueira e por isso não participa do debate sobre o bairro. E como o poder público não está nem aí, o cidadão também parece não se importar, por exemplo, se a fiação elétrica em frente ao prédio ficará — e a árvore, não. 

PorAqui: Acredita que, de alguma forma metafísica, os nomes de ruas podem selar os destinos de moradores que lá habitam? Ou, ao contrário, trocar destinos, como o faz a Rua do Futuro, que, em vez de subir, desce?

Sidney Rocha: Creio que haja todo um bairro ontológico, as Graças que vejo, ainda. Com ele, combato a realidade enquanto continuo caminhando, cumprimentando as pessoas, lamentando quando abrem uma farmácia vizinha à outra. As ruas não, mas o urbanismo termina por definir o modo como nos movimentamos. 

Por isso, é necessário recuperar o humano das cidades assim como o humano na literatura. Não tem a ver com o destino, mas pelo que se luta, porque, na verdade, ninguém foge à rua do Destino. A rua da Vida sobe ou desce, dependendo do ponto de vista.

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