Andanças são percursos para realizar sonhos, feitos de muitas pegadas. Você não lembra do seu primeiro passo, mas foi um momento de muita felicidade em casa, quem estava por perto vibrou, bateu palmas, te encorajou, vai, você consegue, as perninhas ainda bambas e a tentativa do segundo passo, caiu, levanta e tenta de novo. Aos poucos, já andava pela casa inteira e o jardim era pequeno para as pernas que queriam conhecer o chão do mundo.

Passeios no fim de tarde e na hora de ir à escola, os pés levando para os lugares,  sentia-se segura e as pegadas ganhavam mais velocidade, podia correr pelo pátio do colégio, pelas ruas de casa e brincar com os amigos. Era a alegria que entrava em cena, os olhos brilhando, você, feito borboleta passeando pelo bairro, desbravando becos, vielas, casas abandonadas onde chamava os fantasmas e arrancava flores dos quintais. Você era a liberdade.

A rua que te dá um abraço fica nas Graças. (Foto: Raiza Figuerêdo/Colaboração)

O número dos sapatos aumentou no correr dos anos, mas eles sempre foram os melhores amigos dos seus pés. Às vezes podia até pensar, poxa! mas eu gosto tanto desse, não cabe mais.

Tudo muda no universo. Você agora usava os pés para chegar à faculdade, já havia respondido a famosa frase: o que vai ser quando crescer?  começou a ouvi-la desde que nem sabia o que era crescer. Depois, passou a usar as pernas para chegar ao trabalho, aos encontros para rever os amigos, ir na cafeteria preferida e regressar à cidade natal.

Em todo esse tempo de vida passou por muitas calçadas, com buracos, desniveladas, machucou o dedo mindinho. Encarou estradas de terra, ruas de paralelepípedos e asfalto, seus pés se melaram com sujeira e lama, deparou-se com lixo e obstáculos nas andanças e agora no século XXI avista fantasmas reais que insistem em aparecer, a violência urbana é um deles, seus olhos e pés jamais imaginariam encontrar uma faca ou arma no caminho, mas infelizmente isso pode acontecer.

Você aprendeu que podia ser livre caminhando e continua a alimentar esse desejo. Vamos todos juntos para as ruas? Ocupem as calçadas e esquinas do bairro. Eu sonho com o dia em que possa colocar minha cadeira de balanço na frente de casa, como fazia nos tempos de cidade pequena.

Raiza Figuerêdo chegou ao mundo no verão de 1989, em Salgueiro, Sertão de Pernambuco. Nas curvas da estrada, foi descobrindo seus vários eus: escritora, psicóloga, cientista, professora e ainda outros. Tem buscado treinar o olhar para enxergar as pequenas grandes coisas do cotidiano, que coloca no ar em seu site e no canal que mantém no PorAqui, ‘Caminho’. Mora nas Graças.

 

Os conteúdos publicados no PorAqui são de autoria de colaboradores eventuais e fixos e não refletem as ideias ou opiniões do PorAqui. Somos uma rede que visa mostrar a pluralidade de bairros, histórias e pessoas.