Vera Anderson é uma senhora magrinha, risonha, um tanto quanto tímida. O que sai de sua boca tem um caminho certo: vai direto ao coração do ouvinte. Sua postura é enérgica e, ao mesmo tempo, afetuosa. Já foi diretora e diretora-adjunta da escola particular Instituto Capibaribe, nas Graças. Já foi estagiária e, antes, aluna. Hoje é a responsável pelo Soe (Serviço de Orientação Educacional do Infantil e do 1º Ano da manhã).

Os três filhos estudaram lá – uma delas, Ana, trabalha na escola. Dos quatro netos, três estão matriculados (a mais nova ainda é um bebê). "Dos meus 62, quase 63, só cinco não foram no Capibaribe. Ou foi como aluna, estagiária ou profissional", enumera. "Nunca me soltei do Capibaribe. Meus sete irmãos estudaram aqui também".

A história de Vera com o Capibaribe começou no início dos anos 1960, quando, depois de uma experiência infeliz numa escola de proporções colossais, a mãe teve a ideia de colocar no Instituto Capibaribe, fundado em 1955 por Paulo Freire e Dona Raquel, que permaneceria na ativa por mais de 40 anos. 

"Paulo Freire fundou a escola, deu todas as coordenadas filosóficas e pedagógicas. Por um ano, acompanhou e depois partiu pra educação popular. Quando eu cheguei, ele já não estava mais na escola", lembra.

Perguntada sobre como ser mãe lhe ajuda em seu ofício, Vera relembra o lema da escola –  "Amar para compreender, compreender para educar". 

Para ela, "há  uma sintonia, uma intercessão do amor de mãe e do amor de educadora, saber que aquela criança não é filha da gente. Um dos trabalhos mais bonitos da escola no serviço de orientação é orientar a mãe para ele ser mãe e a gente ser a professora, a diretora, a merendeira", explica. 

"Muitas vezes as mães querem trazer pra escola a tarefa de educar nutricionalmente a criança, quando ela faz apenas uma refeição na escola, que é o lanche, e todas as demais em casa. Ela vai aprender a comer em casa e, se a casa estiver errando, não é a escola que vai educar", pontua.

Nas vésperas do Dia das Mães, a movimentação em torno da data é de reflexão e de fazer os pequenos produzirem eles próprios presentes para as mães – ou para quem faz esse papel. Pode ser um biscoitinho dentro de um pote pintado por eles, uma pintura ou massinha de modelar caseira com um aviso "Vamos brincar, mamãe?". 

Mas festa, festa mesmo, não haverá. "A comemoração deve ser feita em casa. Para nós, a ideia é trabalhar a importância da mãe na vida deles, esse afeto, esse amor."  

"A gente tem que pensar sempre no diferente, naquela criança que não tem a mãe. Quem tem mãe, a mídia se encarrega de fazer a festa , mas quem não tem ou tem uma figura materna diferente em casa precisa ser tratada com respeito. Há crianças que têm dois pais, por exemplo", observa Vera.

Família Capibaribe – Se a família de Vera já está em sua terceira geração de alunos do Capibaribe, não é difícil ver alguns ex-alunos trabalhando por lá ou cujos filhos estão matriculados na escola. Há um espírito de comunidade que permeia os frequentadores do instituto sem fins lucrativos fundado por Paulo Freire e Raquel Correia de Crasto em 1955.

Vera tenta explicar o porquê de pais, alunos e funcionários da escola terem uma espécie de simbiose. 

"Há uma identidade, que não é dita, mas fica na área do compromisso social, por um lado, e do afeto, por outro. Você não faz isso se você não tiver um laço afetivo com o mundo e com as pessoas que vão trabalhar com você no Ocupe Estelita, na preservação do Rio Capibaribe ou no espaço público que é as Graças".

"Acho que é como se tivesse um elo entre o sentimento humano e o compromisso de não deixar o mundo do jeito que está. Acho que é isso que une o pessoal que faz o Capibaribe", finaliza.


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