Não importa a cor da luta, o sexo masculino sempre ganha tom único, imperativo. Às mulheres, cabem raros pedaços nas páginas amareladas da história da humanidade. Uma linha sobre Anita Garibaldi aqui, outra sobre as Mulheres de Tejucupapo acolá, cujos livros de história são quase que obrigados a relatar.

Mas, ao contrário do que se propaga, o povo tem memória, e esta ganha vida por meio da literatura e da recriação popular que se espalha como rastro de pólvora. Se escondem Dandara por detrás de Zumbi, o mesmo o fazem com a princesa Isabel, relegando-a apenas ao papel de a filha de D. Pedro II. A esta, ao menos coube o título de ‘redentora dos escravos’… Mas o que há em comum entre elas?

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Dandara, a guerreira

Ao falarmos em quilombo, logo nos remetemos a Zumbi. Entretanto, o quilombo também teve a forte presença feminina entre as batalhas: Dandara dos Palmares.

Embora a sua história pouco seja contada, Dandara não foi apenas a esposa de Zumbi, mas exerceu importante papel na luta pela libertação dos escravos… e preferiu tirar a vida a seguir sendo escravizada.

Exímia capoeirista, Dandara travou os mais ferrenhos combates, quando dos ataques ao Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, em Alagoas.

Reza a lenda que ela nascera no continente africano e teria aportado em terras brasileiras ainda menina, unindo-se ao grupo de negros que se rebelavam contra o regime escravagista daquela época.

Ela sempre estava à frente das estratégias de resistência do quilombo. De tão esquecida pelos livros de história, a sua imagem sequer é, de fato, sabida. O que vemos são retratos elaborados a partir da identidade de pessoa que ela representava: uma negra linda, forte, destemida, com poder de liderança e expressivo desejo por liberdade.

Era também uma excelente administradora, já que contribuiu para a construção da sociedade palmarina, no que tange à organização familiar, política e socioeconômica do quilombo. Além disso, foi mãe de três filhos, junto com Zumbi, sendo sua companheira no lar e nas guerras.

Se dizem que por detrás de todo homem vitorioso há uma mulher, isto até cabe bem a Dandara, que exerceu forte influência sobre as decisões de Zumbi, quando este rompeu com o seu tio, Ganga-Zumba, o primeiro chefe do Quilombo dos Palmares, que havia assinado um acordo de paz com o governo pernambucano, trocando a liberdade dos palmarinos sob o domínio das autoridades do estado, pela prisão dos escravos fugidos que posteriormente buscassem o quilombo como abrigo.

Dandara, sagaz que era, compreendeu que tal acordo não poria fim à escravidão e ainda os tornaria traidores dos seus.

Dandara, que era fiel a sua luta, quando se viu tomada pelo inimigo, atirou-se de uma pedreira, pois pensava ela, eu imagino: ‘se não prendem o meu corpo, menos ainda meu espírito guerreiro, tampouco a minha alma’.

Isabel, a administradora

Conhecida como Isabel do Brasil, a redentora dos escravos, a princesa tinha nome pomposo: Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon e Bragança, mas era mulher e, como tal, observada apenas como a filha do Imperador, enquanto que, na verdade, travava grandes batalhas não apenas pela questão escravagista, mas na administração do País, embora pouco se fale sobre isto.

De fato, Isabel tinha o apoio do seu pai, o Imperador D. Pedro II, no que diz respeito à abolição da escravatura, posto que ele era também contrário à escravidão. Mas quando seu pai estava em viagem, a princesa assumia o seu lugar como regente do trono, tendo sido a primeira administradora do nosso país.

Numa destas viagens do seu pai, Isabel fez valer a Lei do Ventre Livre, que há anos tramitava sem assinatura, libertando a todos os filhos de escravos que nascessem a partir de então. Fazer valer tal lei não foi fácil, mas, aos trancos e barrancos, ela foi aceita, até porque a ideia de abolição seguia a passos firmes, sempre com o apoio do Imperador.

Quando em 1888 D. Pedro II fez nova viagem, o Barão de Cotegipe, contrário à abolição, estava no poder e ameaçou de exílio a princesa, caso ela sancionasse a lei que abolia de vez a escravidão. Isabel não se deixou dominar pelo poder masculino, muito menos pelas ameaças recebidas.

Em 13 de maio daquele ano, ela assinou o decreto que acabava com a escravidão no Brasil. No ano seguinte, com a chegada do regime republicano, a princesa se exilou na Europa, onde faleceu em 1921, aos 75 anos.

A escravidão que nos persegue

Sabemos bem que liberto, mesmo, o negro nunca foi. De início, muitas consequências devastadoras surgiram após a libertação. Do que viveria o negro liberto? Onde viveria? Como viveria? Como ainda vivem muitos dos seus descendentes? Mas não podemos negar o papel importante que tiveram suas principais figuras femininas, tão distintas em cor, raça e posições sociais, e tão iguais em desejo de liberdade.

No lado negro da cor, se assim podemos dizer, além de Dandara, ainda tivemos guerreiras como Maria Felipa, a heroína da independência da Bahia e que também lutou pela independência do Brasil, e Luísa Mahin, marfinense, trazida ao Brasil como escrava, que foi líder dos Malês e participante da Sabinada.

Se a história não revela quem de fato foram estas mulheres, especialmente porque desde priscas eras lutamos por igualdade de gênero e contra o racismo, cabe a nós mantê-las vivas em nossas memórias.

Neste 13 de maio, saudemos o povo que deu origem a muitos de nós, aos ancestrais africanos, aos que sofreram os açoites das chibatas, aos que lutaram por liberdade (homens e mulheres)… E aos que seguem lutando pela sobrevivência nas senzalas de concreto, aos que seguem açoitados pelos chicotes da desigualdade racial, social… pela falta de justiça…

“Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós e que a voz da igualdade seja sempre a voz”… de todas as cores, de todas as raças, de todos os gêneros, de todos os credos… de todos nós…

 

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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