Vamos hoje navegar pelo segundo texto da série que me propus escrever sobre a 1ª Infância. ?

Adianto que nossos encontros por aqui não serão unicamente pautados por este tema, que, por mais apaixonante que seja, não segura a nossa relação. Mas senti que o segundo texto precisava vir logo para consolidar a intenção de termos uma série. A partir de então, o tema aparecerá intercalado com outros temas diversos, como sempre costumou ser nossa conversa.

Se não leu o primeiro, a gente te relembra:

Você já olhou o mundo pelos olhos de uma criança?

Não dá pra falar de 1ª Infância e não falar do Nobel de Economia do ano 2000, James Heckman. Ele conduziu pesquisas na década de 70 com crianças desde o nascimento até a vida adulta. A conclusão foi enfática e transformadora: as crianças que receberam maior atenção com a nutrição, saúde e estímulos adequados durante a primeira infância (0 a 5 anos), em comparação com outras, apresentaram, na vida adulta, maior taxa de empregabilidade, melhor pressão arterial, menos envolvimento com crime e melhor qualidade de vida.

Oitenta por cento do cérebro de um ser humano é desenvolvido na fase de 0 a 3 anos. Até os 6 anos, período que é denominado de 1ª Infância, somos verdadeiros absorventes construtores de significados. Nessa fase nossas sinapses estão em plena ebulição, somos exploradores naturais e estamos desbravando o mundo de forma intensa e balizadora do caminho que virá pela frente.

Não precisamos ir até o Nobel, basta refletirmos o quanto as experiências na infância são determinantes para a forma que você se comporta e se relaciona com os desafios e oportunidades presentes no mundo.

Recentemente fiz essa reflexão sobre algumas atividades que desenvolvi no começo da minha vida profissional, quando tinha 18 anos de idade, observando o quanto elas foram e ainda são definidoras sobre como me sinto e me comporto quando me deparo com atividades semelhantes nos dias atuais. Situações com as quais ainda não estava preparado para lidar e estava conhecendo pela primeira vez. Encarei os desafios, mas ainda carrego algumas marcas.

Agora imagine quando você tinha 4 ou 5 anos, e experimentou pela primeira vez uma série de coisas na vida, como a visita a um museu, um mergulho no mar, uma discussão violenta entre parentes, etc. Imagine o quão essas experiências iniciais, principalmente de forma repetida e sequenciais, têm o poder de influenciar o ser humano que você é hoje.

Velha infância: quando pipa era brinquedo e criança era criança

Ação e reação

Se localizarmos essa conversa dentro do contexto de desigualdade social existente no nosso país, podemos imaginar o quanto o investimento na 1ª Infância pode ser uma das mais transformadoras política públicas possíveis.

Hekcman provou através dos seus modelos matemáticos que a cada 1 dólar investido numa criança, teremos um retorno de 14 dólares anuais durante toda a vida. É melhor do que colocar dinheiro em ações e certamente melhor do que gastar com soluções paliativas de segurança através de força policial.

Ao falar isso, é importante ressaltar que esse investimento não traz retorno apenas lá na frente. Ele traz ganhos imediatos, ele transforma vidas, transforma famílias em tempo real. Quem já teve uma dificuldade com um filho e investiu um tempo e recurso maior para resolver sabe do que falo – o retorno chega e chega rápido. Assim como, nossa gratidão como pai, avô ou familiar, é eterna.

Ou seja, caso alguém que me leia neste momento tenha um modelo mental centralizado em votos, lhe deixo ciente que aqui está uma boa estratégia de política pública que repercute positivamente também nas urnas.

Termino este texto com a sugestão de nos reencontrarmos com as crianças que um dia fomos e que ainda carregamos em algum lugar dentro de nós, através da nossa relação com as crianças ao nosso redor. Ao menos as mais próximas da gente.

Olhe nos olhos delas e as escute da forma que você gostaria de ter sido escutado lá atrás, da forma que você ainda quer ser escutado atualmente. Converse, dialogue, ensine e cuide dela, pois certamente é a melhor forma de você também cuidar de você agora e no futuro.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

Os conteúdos publicados no PorAqui são de autoria de colaboradores eventuais e fixos e não refletem as ideias ou opiniões do PorAqui. Somos uma rede que visa mostrar a pluralidade de bairros, histórias e pessoas.