Em meu tempo de criança, não dispúnhamos de tanta tecnologia, os nossos brinquedos eram muitas vezes por nós mesmos construídos. As pipas, os carrinhos de madeira, patinetes, bonecas de pano, bolas, barquinhos de papel… Brincávamos e cultivávamos nosso jeito moleque, às vezes arteiro, mas sempre carregado de inocência.

As competições eram os jogos com bolas de gude, virar figurinhas (o velho bafo), jogar pião; jogávamos dominó, ludo, tabuleiro de damas; fazíamos jogos de vocabulários, como o famoso “nome, lugar, fruta, animal, objeto…” (a nossa primeira planilha e nem podíamos imaginar); brincávamos de barra-bandeira, queimado, seu rei mandou dizer, pique-esconde…

Também fazíamos nossas artes, é verdade. Também fomos mal-ouvidos, malcriados em alguns momentos. Quem nunca tocou uma cigarra e correu léguas para não ser descoberto? Quem nunca roubou uma fruta do quintal daquela senhora ranzinza que vivia sozinha, rodeada de bichos?

Da nostalgia dos Carnavais da infância

Em todos os lugares tinha uma casa com alguém assim… Quem nunca chutou uma lata enquanto alcançava o caminho de casa? Quem nunca fugiu de um castigo para se juntar aos amigos nas brincadeiras de rua (e levou uma pisa depois…)? Quem nunca viveu o terror daquela frase: “se eu for aí e achar, eu esfrego nas suas ventas!”? Quem nunca viveu o dilema numa tomada de decisão, diante do: “se correr, vou bater mais ainda!”? Quem nunca?

Nos tempos de outrora

Em meu tempo de criança, não tínhamos computadores, não sabíamos o que era o video game. Nossas bolas eram as mais simples, as nossas bonecas eram as Wanderleias, com o cabelo de fuá… Saudade dos carrinhos de rolimã, do conjunto de panelinhas, das pipas feitas com papel de seda e tiras de coqueiro…

Na televisão, curtíamos o programa Vila Sésamo, o Sítio do Pica-pau Amarelo, os desenhos da TV Globinho… Os nossos shoppings eram os zoológicos, os parques de bairro, os circos de lona montados num campo de futebol de várzea, as praças das cidades, os quintais das casas de nossos avós.

Memórias de um Recife melhor que ele mesmo

Não tínhamos Ipod, Mp5, Itunes. Não vivíamos tirando fotos aqui e ali. só nos aniversários ou para a carteira de estudante. Nossas cantigas se davam no gogó, durante as brincadeiras de roda, nos bate-papos nas calçadas, nas festas da escola…

Em meu tempo de criança, cupcake era o bolo de bacia; tomávamos mais sucos e caldo de cana do que refrigerante; ao invés de brownies, cookies e trufas, nos deliciávamos com o doce japonês, o pirulito de caramelo no tabuleiro, o alfenim daquele moço, perto da roda gigante… o cavaquinho, que, no fundo, não tinha gosto de nada, mas todo mundo ficava louco quando o “homem do cavaquinho” passava tocando seu triângulo.

E o que dizer do bife com batatas, arroz e feijão das nossas mães? Era um prato mais disputado que rodízio de pizza em promoção.

Criança era criança

Em meu tempo, criança era… criança, ué! Nossa academia eram a rua, as brincadeiras e traquinagens. Não desfilávamos em passarelas, as meninas não traziam em seus rostos angelicais maquiagens carregadas, não faziam bicos e poses para fotos (muitas vezes, antecipando uma sensualidade que sequer foi desabrochada)… Os meninos não usavam correntes ostentosas no pescoço, não se exibiam dançando músicas provocadoras de uma virilidade ainda desconhecida…

Em meu tempo de criança, costumávamos fazer as refeições com a família inteira, todos sentados em volta da mesa. Respeitávamos os mais velhos, cumprimentávamos mais as pessoas, pedíamos “a benção” aos nossos pais, avós, tios, padrinhos…

Silenciávamos se os adultos estivessem falando… aliás, nosso lugar nem era perto das conversas deles. O pré-requisito para irmos a uma festa era ouvir uma palestra sobre regras de comportamento: “não me peça nada; se lhe oferecerem, você não quer; não mexa em nada; não diga se estiver com fome; não corra; não coma doce antes do ‘parabéns’; é pra chamar os adultos de senhor e senhora, ouviu?”… E era tão bom obedecer… podia até gerar recompensas…

Passo a passo

Ah, em meu tempo… éramos, de fato, criança… vivendo cada passo, cada fase, crescendo, adolescendo, preparando o corpo e o espírito para a maior idade. As crianças do agora se ‘adultam’ antes mesmo de viver a alegria do adolescer…

Pior: são amparadas e até moldadas pela irresponsabilidade ou falta de sensibilidade de alguns pais e mães… talvez vazios de bom senso, de amor verdadeiro, frustrados em seus desejos irrealizados ou mesmo porque não lhes foram ofertada a possibilidade de viver uma infância real – não sabemos ao certo e não nos cabe julgamentos.

Mas é preciso estar atentos… de nada adiantará o lamento… Se não for vivida em sua plenitude, a idade da inocência não será sabida e não adianta chamá-la de volta… seu clamor não será mais ouvido… Reflitamos!

 

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

 

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