Por que a FIFA não impacta de verdade as pessoas mais carentes onde os mundiais de futebol são realizados? A realidade da Copa não é a que passa na TV. Não. A BBC News Brasil que o diga. A emissora, em seu site, publicou uma matéria contundente na semana passada através de uma equipe de reportagem que está na Rússia cobrindo a atual edição da Copa do Mundo de Futebol.

Em Rostov, cidadezinha que abrigou a seleção brasileira na primeira partida do mundial, meio que por acaso o repórter Ricardo Senra entrou na parte real da cidade. E encontrou o que nós, brasileiros, conhecemos muito bem: miséria. Miséria humana.

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Não tão distante do luxo dos hotéis, da estrutura armada pela FIFA para receber os turistas e do portentoso estádio erguido lá (que custou o equivalente a um bilhão de reais!), lixo, fome, esgoto sem tratamento, água sem encanamento, famílias sobrevivendo arrasadas pela miséria – muitas delas revoltadas pelo tratamento recebido nas desapropriações de suas casas para construção da citada Arena Rostov.

Não, caro leitor, qualquer semelhança com a Copa realizada no Brasil em 2014 não é mera semelhança. Tal como lá, a miséria aqui foi maquiada (quase, porque ao menos vivemos numa democracia em que protestos são permitidos, o que ocorreu de fato na ocasião do mundial, e lá na Rússia são proibidos por lei); as desapropriações foram igualmente desrespeitosas; os estádios caríssimos e alguns com claros indícios de que se tornarão elefantes brancos – como a arena de Kaliningrado, com capacidade para 35 mil pessoas, que custou a bagatela de 280 milhões de dólares e após a Copa ficará para o Baltika, clube da segunda divisão russa e que possui média de público de apenas 4 mil torcedores por jogo.

Ainda superamos os russos porque aqui se prometeu a realização de obras de mobilidade e infraestrutura que foram mal feitas ou sequer aconteceram – segundo levantamento da BBC Brasil, são 41 obras inacabadas desde 2014.

Igualmente à Rússia, o tal “legado da copa” virou balela. E é aí que quero chegar: em que de fato o megaevento da FIFA contribui para a vida das pessoas mais pobres nos países em que é realizado? Seja no continente que for, há sempre o que melhorar – e nos menos abastados, sem dúvidas, a necessidade é imperante.

Há algum tempo empresas e instituições têm acordado para uma necessidade urgente: promover impacto na vida humana, especialmente nas suas bases de funcionamento. A dicotomia empresa x realidade social vem se transformando, passando a prevalecer a assunção da responsabilidade que o mundo corporativo precisa de fato assumir com o planeta e as pessoas que nele habitam. Por que então a FIFA, com sua vasta penetração mundial, continua não se interessando de verdade pelo que nos torna humanos?

Dinheiro entra. E muito. Para se ter uma ideia, a Copa na Rússia é a mais cara para um país anfitrião em toda a história da competição, com um custo total estimado de 13 bilhões de dólares, e a previsão de lucro da FIFA no ciclo 2015-2018 é de 100 milhões de dólares entre a venda de direitos de transmissão, venda de ingressos e patrocínios. Não bastassem essas cifras, a FIFA ainda monta uma enorme estrutura de voluntários, que trabalham de graça, o que só amplia os lucros da entidade.

A FIFA investe cifras mais modestas em diversos projetos ligados ao futebol pelo mundo, mas por que não usa parte do seu lucro em projetos sociais pelo globo que transcendam a modalidade? Por que não impactar de verdade as pessoas mais carentes onde as competições são realizadas, cobrando de fato melhorias para a população? Por que não?

Indo além das Copas, os números que envolvem os rendimentos dos profissionais de primeiro nível do futebol destoam vergonhosamente da média mundial. Jogadores como Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar, só para ficar nesses três exemplos, faturam por ano mais do que a maioria das empresas do mundo. São pessoas que se tornam marcas, marcas que transcendem as pessoas. No Brasil, guardadas as proporções, o primeiro escalão do futebol repete o desnível europeu, espelhando uma desigualdade absurda. Jogadores e técnicos são ícones da subversão de valores duma sociedade de espetáculos.

Desencanto

Há um bom tempo que me desencantei com o futebol. Eu, escritor que quase foi jogador profissional (goleiro que fui e tive o prazer de jogar ao lado de Juninho Pernambucano nas categorias de base do Sport Club do Recife – e que atuei também nos coirmãos Náutico e Santa Cruz).

Eu, que sempre fui de frequentar as arquibancadas do meu amado Sport e quase nem mais vou pra jogo (ainda que acompanhe de longe o destemor do meu clube de coração nas disputas pelo Brasil – destemor semelhante para qualquer clube nordestino que dispute competições nacionais). Eu, que aprendi dentro do campo que o esporte pode salvar vidas, mas que o futebol profissional, apesar dos belos exemplos de transformação, espelha uma sociedade doente por dinheiro, mídia e descaso com o outro.

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Nesse viés, admito: a Seleção Brasileira não me encanta mais. Uma seleção-produto sempre convocada com pauta no comércio de jogadores atuantes no eixo Sul-Sudeste para o exterior. Jogadores quase estrangeiros, milionários, que para mim não mais trazem o espírito do povo brasileiro.

Vencer a Copa ou cair não me interessa tanto quanto o que pode ser feito para melhorar de fato o país. A amarelinha não mais me colore. Faltam cores que me animem. Curto a Copa do Mundo, sim, enquanto competição multicultural e com jogos de ótimo nível, mas fica por aí.

Quem sabe surjam mais jogadores humanos como Raí, Hernanes ou Cafú, que utilizem suas fortunas para dar oportunidades a crianças e jovens carentes? Quem sabe um dia a Copa do Mundo não esconda as mazelas de cidades como Rostov ou Recife e, de fato, deixem um legado real para as pessoas? Quem sabe a FIFA e as federações dos países remodelem o papel do futebol pelo mundo? Aí talvez eu volte a ser um grande entusiasta do futebol, indo além do prazer que tenho pelo esporte mais popular do planeta. Quem sabe…

 

Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas, sendo a mais recente “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos”. Realiza palestras, workshops e oficinas de Criatividade e Escrita e é apresentador do programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv). Contato: sidneyniceas@gmail.com.

 

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