Não sabemos por que amamos, nós amamos, sentimos que amamos, pensamos ser amor.
Nós não o procuramos, ele nos encontra, nos desarma, brota em nós como a flor.
E então nos encantamos, nos derramamos, nos abobamos, nos desconhecemos.
Se somos fracos, nos fortalecemos; se fortes, enfraquecemos; se aos pedaços, nos refazemos.

Ama-se apenas uma vez? O amor nos chega apenas por uma única oportunidade?
E o recomeçar, como é que fica? Se uma parte do amor se rompe, cessou para nós a felicidade?
E se não era amor o que se sentia, apenas uma ponta de alegria que se foi ao romper da aurora?
E se a admiração deu partida, saiu sem despedida, se a química que havia fora embora?

Mas o que é amar? O que é o amor?

O amor não avisa quando chega, gosta de se mostrar presente, mas não programa sua partida.
Não duvide que era amor, não julgue o outro se não sabe quão profunda é sua ferida!
O amor não se define, ele existe, é, chega, se aboleta, escancara a sua porta sem pedir licença.
Se você estava preparado, se queria alguém ao seu lado, não importa, para ele não faz diferença.

Camões dizia que o amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente.
Eu digo que se pode, sim, enxergar sua fogueira e gemer com as marcas que deixa na gente.
Em I Coríntios, está escrito que mesmo que se fale a língua dos homens, nada se é sem amor.
Mas, por que às vezes ele passa tal qual um tornado, deixando marcas, causando dor?

Vinícius escreveu certo dia que em tudo ao seu amor seria atento, e sempre e tanto.
Mas nem todos estão preparados para tanta entrega e provocam no noutro o pranto.
Racionalizando, Djavan cantou que o amor é um grande laço, uma armadilha.Mas todos querem nele se prender e no seu mar se perder, tal qual uma ilha.

Há quem diga que o amor “é um furacão, que surge no coração sem ter licença pra entrar”.
Será que se permitiria sua entrada se fosse sabido o estrago que por vezes pode causar?
Para Drummond, o amor é grande, cabe na janela sobre o mar, na cama, no colchão.
Penso que às vezes ele cresce tanto que não cabe no corpo inteiro, que dirá no coração!

Ouvi Bethânia dizer que vive a vida, a vida inteira a descobrir o que é o amor.
Digo que dele só se sabe, quando tudo muda de lugar, quando em noite fria se sente calor.
No dicionário, é masculino, carregado de intensidade, é um nobre de fino trato.
Diz-se substantivo, com múltiplos significados, mas é o mais concreto de todo os abstratos.

O amor é o nome, o debulhar dele é o verbo, o que o recebe é o particípio, diz-se o amado.
Feliz quem dele se alimenta com reciprocidade, quem sozinho o experimenta é o condenado.
Quando partilhado se mistura, ora se aquieta, é ternura, ora é desejo, volúpia, paixão.
Se segue só a sua estrada, se transforma, vira desencanto, desalento, chama-se desilusão.

Ainda que dele se fuja, é para ele que se corre, que se atravessa a madrugada.
Ainda que dele pouco se entenda, por ele, ninguém se importa de percorrer a longa estrada.
Ainda que ele cause desastres, traga agonias, faça alarde, nos arraste tal qual um tsunami,
Não há um ser nesta terra, seja na paz ou na guerra, que não tenha amado ou que não ame.

E mesmo que doa, que se perca o afeto, que a decepção, do nada, venha fazer morada…
Não há nada mais prazeroso, não há sentir mais gostoso do que se entregar ao amor e mais nada.