Era dezembro de 2013. O Instagram já existia há algum tempo, mas nem todo mundo vivia lá 24h por dia — muito menos compartilhava todos os pratos de comida, fotos de cachorros e looks do dia. Eu, que sempre demorei alguns anos a mais do que o resto dos meus amigos millennials pra entrar nas redes sociais, tinha acabado de criar um usuário quando fui parar na página de um tal de nympheshit.

Por trás dos desenhos de figuras andróginas coloridas, havia um garoto chamado Samuel d’Saboia (@sarmurr), artista recifense ainda novinho, na época com seus 15 anos. Se me dissessem que ele hoje, aos 20 anos de idade, estaria se preparando pra expor em Nova York e Atlanta, eu com certeza iria acreditar.

Festim Eterno de Samuel d’Saboia

A arte dele sempre me pareceu algo muito vivo, quase como um personagem que fala, que tem voz mesmo. Todas aquelas cores, traços e materiais diferentes queriam dizer algo que tinha a ver com uma militância que a gente, no auge da adolescência, ainda não entendia direito.

Samuel ainda não tinha cunhado o conceito do Afropresentismo em sua obra — que girava em torno de telas, esboços e pinturas nas paredes feitas no seu quarto no bairro do Totó, Zona Oeste de Recife . Mas ele já sabia muito bem qual era o intuito da sua arte: falar com a gente, mostrar a gente, colocar a gente em evidência como produtor de arte, ampliar a representatividade da gente. E esse ‘a gente’, aqui, tem cor e temporalidade bem definida: o negro no presente, no agora.

O afro no presente

Uma vez nos esbarramos num café e passamos horas conversando. Samuel me contou sobre o seu editorial para a revista ELLE, onde fez pinturas que contracenaram com roupas da alta costura— Burberry, Channel, Gucci.

Ali ele começava sua inserção também no mundo da moda, que culminou na sua participação na 43ª edição da São Paulo Fashion Week, em 2017, quando assinou uma coleção da grife Cemfreio, do estilista Victor Apolinário. Era um menino negro, recifense, de 19 anos, brilhando em uma das passarelas mais conceituadas do mundo.

No mesmo dia do café, me lembro também que ele falou do Totó, de como era batalhar pra trabalhar, pintar, vender, juntar dinheiro pra viajar e divulgar a arte, voltar pra casa e sentir que tinha que ajudar lá também. Uma vida contrastante: enquanto ele se afundava na arte e passava horas pintando, alguns amigos de infância se perdiam na dura realidade da comunidade.

Acho que é muito daí que vem todo o lance do Afropresentismo da obra de Samuel. É uma necessidade de mudar a realidade agora, de redefinir a representação do negro na arte contemporânea, de reivindicar avanços urgentes para pessoas negras.

Acompanho todo o crescimento de Samuel: as matérias internacionais, o contato com galeristas estrangeiros, os amigos e os caminhos que se ampliam… E ele ainda está no Totó, mas agora vai pro mundo.

From Totó to the World

Tríplice e Vesuvio Era uma Mulher (Foto: Samuel d’Saboia/divulgação)

A primeira viagem internacional de Samuel não será para a sua primeira exposição internacional: ele já expôs em Nova York, em 2016, enviando as obras pelos Correios. Esta será a segunda vez da sua arte fora do Brasil, mas agora ele vai participar de perto, tanto em Atlanta, na Messy Magazine, quanto em Nova York, na Galeria Ghost Project.

Pra arrecadar os 4 mil dólares previstos para custear passagem, hospedagem e alimentação nos 4 meses que vai precisar ficar nos EUA, Samuel lançou nas redes sociais uma campanha para a venda dos seus quadros. As obras são feitas sob encomenda e podem ser solicitadas no seu Instagram (@sarmurr). Os valores das artes no papel são a partir de R$ 350, e nas telas a partir de R$ 1500.

Hoje, toda vez que vejo alguma foto dele no Instagram, corro pra ler os comentários de quem o elogia com um tom de fã, de admirador. Sempre tem alguém novinho lá no meio — e eu me lembro da gente em 2013.

Aí me dá uma vontade imensa de reiterar pela milésima vez em tudo quanto é canto: representatividade importa. E ainda bem que Samuel tá aqui pra nos representar tão bem.