A Copa do Mundo da Rússia vai flopar no Brasil? Faltando 17 dias para o início do maior evento esportivo do mundo, a sensação que temos é de um país cinza, anestesiado e sem combustível para acompanhar o torneio internacional que um dia já pintou as ruas de verde e amarelo e nos trouxe muitas alegrias.

Estudo do Instituto Paraná Pesquisas realizado em maio com 2.170 pessoas, aponta que a situação de indefinição política do país tem interessado mais ao povo do que a Copa do Mundo. Segundo pesquisa, 77,7% dos entrevistados estariam mais interessados pelas notícias da Operação Lava Jato em detrimento do torneio internacional.

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Os rumos da política nacional em um ano que prevê eleições para o mês de outubro e um panorama de polarização ética e moral que muitas vezes beira ao prazer esportivo de um Fla x Flu, podem estar tornando a Copa do Mundo um evento sem o apelo coletivo e representatividade identitária de outros tempos. 

O estopim da greve dos caminhoneiros acontece a menos de um mês da Copa na Rússia. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Detratores do esporte que é parte da nossa cultura, assim como o samba, o funk, o brega, a feijoada e a capoeira, costumam diminuí-lo como “ópio do povo”, mas não percebem como o futebol pode ser um importante termômetro para entendermos o nosso país e o mundo, além de ser uma ótima oportunidade para darmos visibilidade aos temas que consideramos urgentes.

Para ilustrar essa ideia, decidi resgatar quatro fatos históricos em que o futebol trouxe para dentro e fora dos gramados importantes reflexões políticas.

João Sem-Medo e o ditador

Jornalista e treinador da Seleção Brasileira, João Saldanha peitou a ditadura militar. Foto: Acervo Jornal Última Hora | Arquivo Público do Estado de São Paulo

Em fevereiro de 1969, ano anterior à realização da Copa do Mundo de 1970 no México, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atual CBF, surpreendeu o país ao convocar o jornalista e treinador futebolístico, João Saldanha, para comandar a Seleção Brasileira no torneio internacional.

Alinhada ao regime militar e ciente dos ideais libertários de João Saldanha, a CBD resolveu apostar em seu nome para abrandar as críticas da imprensa em cima do escrete nacional. A cartada deu certo. Com uma sequência de vitórias, o treinador conseguiu resgatar a simpatia do brasileiro pela Seleção.

João Saldanha formou um belo time e desafiou o general Emílio Garrastazu Médici. Foto: Antonio Teixeira/CPDoc JB

Com a ascensão do general Emílio Garrastazu Médici ao poder e a morte do amigo Carlos Marighella, Saldanha passou a criticar de forma mais ferrenha a ditadura vigente e após dossiê denunciando os males do golpe militar distribuído por ele mesmo no México durante o sorteio de grupos da Copa do Mundo, os dias do treinador à frente da Seleção ficaram contados.

Nas vésperas da Copa do Mundo, um repórter questionou João Saldanha sobre um pedido do general Médici para convocar o atacante Dadá Maravilha, que atuava no Atlético Mineiro. Saldanha respondeu de bate-pronto: “Ele (Médici) escala o ministério, eu convoco a Seleção”.

Após duas semanas foi demitido do comando da canarinha e em seu lugar foi chamado Zagallo, que pegou o time pronto e o conduziu ao tricampeonato mundial. Desde então, Saldanha foi apelidado de João Sem-Medo

A rebeldia do Doutor

Atleta do Corinthians, Sócrates liderou movimento em prol da democracia no clube. Foto: Reprodução

Jogador diferenciado dentro e fora das quatro linhas, Doutor Sócrates, um dos líderes do movimento conhecido por Democracia Corinthiana, foi um atleta de inteligência rara que ousou fazer da prática esportiva um meio de conscientização política a favor de um Brasil menos desigual, mais justo, sem homofobia, racismo e fome.

Um dos principais nomes da Seleção Brasileira na Copa de 1986, no México, Sócrates aproveitou sabiamente que o mundo estava voltado para a competição internacional e decidiu lançar mão de faixas na cabeça chamando atenção para graves situações sociais.

Nova geração de craques brasileiros são frequentemente criticados por não se posicionarem politicamente. Foto: Reuters

Mesmo recebendo uma notificação do Governo Mexicano sugerindo que evitasse posicionamentos políticos durante a Copa do Mundo, após dar declaração a um jornalista local de que o país vivia em uma ditadura disfarçada, Sócrates ignorou a determinação solenemente.

“México, sigue de pie” era o que estava escrito na faixa do jogador quando entrou em campo. A mensagem fazia referência ao terremoto pelo qual o país sofreu um pouco antes de começar a Copa do Mundo. Mas a humana homenagem não se resumia apenas a isso.

Quem olhasse com mais atenção à faixa amarrada na cabeça do craque, poderia ler uma outra sentença: “Reagan terrorista, Kadafi democrata”. Na época, Estados Unidos, de Ronald Reagan, e a Líbia, de Muamar Kadafi, estavam em guerra. Sócrates, escolheu o seu lado.

Ainda neste mesmo torneio, o atleta entrou em campo com outras faixas trazendo temas provocadores como a fome, as guerras, o racismo e o imperialismo.

Estados Unidos x Irã: Um abraço em meio à guerra

Atritos diplomáticos à parte, seleções de Estados Unidos e Irã selam paz em jogo histórico. Foto: Reprodução

Uma partida histórica pela primeira fase da Copa do Mundo de 1998. Algozes políticos desde 1979, o sorteio do torneio internacional juntou as seleções dos Estados Unidos e Irã no mesmo grupo. A preocupação foi imediata. Muitos imaginavam que o confronto diplomático entre os dois países fosse traduzido também dentro dos quatro linhas.

O Governo iraniano tratava o jogo como uma guerra, contudo os jogadores do país, em um ato pacífico e de rebeldia contra os próprios líderes da nação, surpreenderam os jogadores estadunidenses com flores.

Após o ato político de gentileza, atletas das duas seleções posaram para fotos abraçados. Torcedores exibiam bandeiras dos países lado a lado. Em uma partida tranquila e de jogo limpo, os iranianos venceram o time norte-americano por 2 x 1.

A atitude dos jogadores iranianos foi interpretada como um protesto contra o regime político dos aiatolás que, no ano de 1984, matou o então capitão da seleção, Habib Khabiri, supostamente por ter ligações com os Estados Unidos.

O beijo histórico e a vitória do amor

A jogadora Abby Wambach e sua esposa Sarah Huffman se beijam em comemoração de título. Foto: Elaine Thompson

Copa do Mundo de Futebol Feminino, ano 2015. A norte-americana Abby Wambach, então com 32 anos, jogava a competição internacional pela última vez. Na final disputada com o Japão em jogo que terminou 5 x 2 para os Estados Unidos, a atleta se tornou campeã do torneio pela primeira vez.

Após encerrada a partida, a atacante correu em direção à arquibancada onde fica a torcida e tascou um beijo na boca da sua esposa, Sarah Huffman, com quem na época era casada há dois anos. A imagem rodou o mundo, mas nos Estados Unidos o ato teve sabor especial, pois a Suprema Corte do país tinha acabado de legalizar o casamento homoafetivo.

A hashtag #lovewins invadira as redes sociais e a atitude de Wambach ficou gravada na memória como um dia histórico no futebol internacional e na resistência LGBT. Na cerimônia de premiação, a jogadora ainda evitou apertar a mão de Issa Hayatou, representante da FIFA.

Na época, a atacante liderava campanha contra a entidade por conta do gramado sintético/artificial que foi destinado às mulheres no mundial. Os homens jogavam no gramado natural. O movimento de Wambach alegava discriminação de gênero da instituição.