Flagro-me cheio de reflexões e preocupações embutidas. E não poderia ser diferente: ainda repercutem números de 2013, de uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília, sobre o perfil dos escritores e personagens da literatura brasileira contemporânea. Coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, essa pesquisa foi divulgada em 2005 e publicada em 2013 no livro “Literatura Brasileira Contemporânea – Um Território Contestado”.

Para chegar aos números que vou citar aqui, foram lidas 258 obras brasileiras contemporâneas publicadas entre 1990 e 2004 pelas editoras Rocco, Record e Cia das Letras. Vocês devem questionar a defasagem dos dados, já que avançamos nesse 2018, e também a limitação do alcance da pesquisa, já que abarcou somente três grandes editoras. Dou razão. Todavia, vamos conferir e analisar os números. Aí será possível entender que de fato algo bate com a nossa realidade.

Verticalização urbana é base de romance de Wellington de Melo

Em relação aos escritores brasileiros analisados, 72,7% são homens, 93,9% são brancos e 78,8% têm curso superior. Cadê as mulheres? E os negros? E os mais pobres? Claro que se os números aludissem editoras de médio e pequeno porte e também publicações independentes, seria diferente, mas será que essa diferença seria tão grande? Os números não param por aí…

A análise dos personagens é ainda mais contundente. Nos 258 livros estudados, apenas 03 protagonistas eram mulheres e negras… Três! 73,5% dos personagens negros são pobres e 20,4% destes são bandidos.

A maioria dos personagens que não são homens e/ou brancos são coadjuvantes! Em 56,6% dos romances pesquisados não existe sequer 01 personagem não branco e apenas 7,9% dos personagens são negros. Mais: 56,3% dos adolescentes negros retratados nos romances brasileiros estudados são dependentes químicos contra apenas 7,5% de brancos na mesma situação. 25,1% das personagens mulheres são donas de casa. E enquanto a maioria dos brancos morre na ficção por acidente ou doença, os negros morrem mais por assassinato.

A pesquisa é mais ampla, mas vamos fazer uma breve análise dos números apresentados aqui: mesmo levando em consideração os anos que já se passaram e a limitação dos dados, esses números não me parecem irreais.

Eles refletem a elitização da Literatura no país (algo que tenho combatido sempre!). Espelham a sociedade em que vivemos, onde mulheres, negros e pobres ainda capengam por espaço e valorização.

Apontam para a exclusão também de outras regiões do Brasil, já que os dados revelam que a maioria dos autores estudados é do eixo Rio-São Paulo, que concentra a maior fatia do mercado editorial do país – isso explica também porque tantos autores precisam sair de suas cidades para buscar maior visibilidade no Sudeste.

Claro que é sempre válido ressaltar, em relação ao perfil dos personagens apresentados na pesquisa, que a arte não tem nenhum compromisso senão com ela mesma, não sendo nenhum artista das letras obrigado a retratar a diversidade do seu povo.

Todavia, a discrepância dos números é assustadora e aponta para a necessidade urgente de democratização da Literatura. É preciso quebrar esse muro incômodo erguido por uma intelectualidade excludente.

Preto, pobre e poeta

Nesse sentido, lembro-me do poeta e amigo Miró da Muribeca que, em recente entrevista a mim no meu programa Tesão Literário com Sidney Nicéas, falou que pertencia a classe dos 3Ps: preto, pobre e poeta. Lembro-me também do vídeo que anda circulando pela web, aonde o ator Lázaro Ramos entrevista o cantor Crioulo e este refuta a afirmação de que está havendo uma ascensão da classe C, escancarando enfaticamente o desafio de ser pobre nesse país – e o interessante é que esse vídeo vem sendo compartilhado com tons ideológico-partidários equivocados, afirmando que um jangadeiro calou o ator esquerdista e que a Rede Globo não mostrou isso etc, ignorando que o jangadeiro em questão é o cantor Crioulo e a entrevista é do Canal Brasil, e não da Globo… (Ô tempos de manipulação absurda!).

Pois é. Enquanto pesquisadores continuam engordando os números dessa pesquisa, devendo nos brindar em breve com uma atualização desse perfil dos escritores e obras brasileiras contemporâneas, eu sigo com o desafio de refletir e buscar contribuir para melhorar esse quadro. E vocês podem ser meus companheiros nessa jornada. Que tal doar livros para bibliotecas comunitárias? Ler para crianças carentes? Contribuir com projetos que fomentem a Literatura entre os excluídos sociais? Sim, a responsabilidade é de todos. E acredito que esse é o caminho para uma sociedade mais crítica, participativa e educada. Sim, meus caros leitores: a Literatura salva!

 

 

Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas, sendo a mais recente “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos”. Realiza palestras, workshops e oficinas de Criatividade e Escrita e é apresentador do programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv). Contato: sidneyniceas@gmail.com.

 

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