Hoje resolvi falar sobre machismo sob a perspectiva do homem, pois nunca isso foi tão necessário.

Um novo caso de abuso vem a público, um homem levanta a voz para defender o agressor envolvido e dizer que é mimimi da mulher que foi abusada. Uma mulher presente no recinto escuta isso e com a veemência necessária mostra que ele está errado.

Ele não dá o braço a torcer e continua batendo na mesma tecla, num ato de estupidez, falta de sensibilidade e confusão mental. Essa cena tem se repetido com muita frequência ultimamente, parece que nós homens estamos bem perdidos, mais do que sempre fomos.

Existe o Recife lá dentro, ou não, como diria Caetano Veloso

E quando falo que sempre fomos perdidos não é em tom poético ou arranjo textual, é um fato. Nós, homens, recebemos uma educação tacanha, para não dizer escrota. Os meninos desde muito novos recebem a ordem onipresente e eterna de seus pais e mães para ¨agirem como homens¨, e ¨homens não choram e não vestem rosa¨.

Sei que isso está começando a mudar, mas ainda parece prevalecer em larga escala. Além disso, as meninas em geral amadurecem muito mais rapidamente. Começam a interagir socialmente, organizar suas ideias e estabelecer relacionamentos construtivos em grupo muito mais cedo.

Os meninos, na passagem da infância para adolescência, simplesmente se perdem. É comum beberem e usarem outras drogas em demasia para afogar suas angústias e só assim se permitirem demonstrações de afeto mais íntimo com seus amigos.

Não é à toa que a taxa de suicídio na adolescência é bem maior no sexo masculino do que no feminino. Em suma, esse tipo de criação gera violência de diversos tipos.

Uma revolução

Nós fomos criados machistas, por pais e mães machistas, e continuamos seres machistas. Isso é vergonhosamente medonho e precisa mudar rapidamente. Felizmente essa revolução já começou e não tem mais volta.

A mudança está, sim, ocorrendo rapidamente. Lógico que não de forma uniforme em todos os lugares e estratos sociais, mas o que posso dizer é que ensino todos os dias ao meu filho como não ser machista. Pelo menos me esforço nessa missão.

Reflexões para quem pensa em ‘dar o lavra’ de Recife

Sei que, além de possivelmente não estar fazendo da melhor forma, pois não recebi manual e o processo é principalmente intuitivo, essa causa é bem mais complexa e pede muito mais do que apenas o esforço de um pai. Preciso do apoio de todas as outras instituições da sociedade com a qual ele tem e terá contato.

Antes que você comece a julgar que esse é um texto que coloca o homem no lugar de oprimido e não de opressor, peço de coração que não caiamos na tentação sedutora do maniqueísmo.

Aproveito para dizer quais são meus reais sentimentos e ideias sobre os movimentos feministas, absolutamente importantes e necessários. O fato de termos sido criados machistas não nos dá o direito de sermos machistas e precisamos ser reeducados nesse tema, por mais que essa educação seja dura e eventualmente constrangedora. Nunca precisamos tanto de ajuda.

Diálogo

Perceba que ainda estou no campo das ocasiões que pedem diálogo, mesmo que seja caloroso. Não estou tratando dos casos de crime. Houve toque sem consentimento, é cadeia, houve abuso de poder na paquera, é cadeia, e por aí vai. Mas note que existe esse ¨por aí vai¨, a zona cinza, que não está clara para absolutamente ninguém e que clama por diálogo.

E quando falo de diálogo, não falo de briga. Entendo perfeitamente que alguma briga no campo das ideias infelizmente continuará sendo necessária e provavelmente por um bom tempo.

As estatísticas de violência contra a mulher machucam profundamente qualquer sexo e precisa ser uma luta de todos. Foi-se o tempo em que era ¨proibido¨ se meter na vida alheia, se sentiu cheiro de uma potencial agressão, aja rapidamente!

Mas falo dos casos mais sutis, falo de uma reeducação colaborativa, daquelas que têm o poder de tocar internamente a estrutura de todos, inclusive dos potenciais opressores, ao ponto de evitar condutas inadequadas e também crimes.

O mundo está em plena transformação efervescente sobre o papel do homem e da mulher, e suas diversas formas de relação. Isso é bom. Isso é ótimo. Isso é evolução e oportunidade para corrigir erros graves. Mas para evoluirmos ainda mais acredito que precisamos vencer a fase da dicotomia. Precisamos aprofundar o diálogo honesto e construtivo. As atitudes machistas são as vilãs e não os homens.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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