Existem recompensas que estão esquecidas naquele bolso menor da sua calça, aquele que nunca é utilizado e que talvez por isso mesmo seja tão difícil de inserir os dedos, mesmo os mais finos e determinados.

Lá são colocados os retornos mais altos dos seus investimentos. Quando menos esperamos, encontramos ali o essencial, o que nunca guardamos, mas que acabou sendo guardado.

Lá estão as memórias dos amores e amizades juvenis, dos flertes na saída da escola, do abraço materno apertado da infância, da espera ansiosa sem saber se o outro também estaria lá ou já teria partido.

Esse encontro desencontrado de expectativas que é a vida, juntamente com os rastros que deixam, é o que causa a viscosidade da pele, o lampejo dos olhos e também o que desobstrui as artérias mais entupidas do seu coração.

É o que armazena seus sonhos esquecidos e o que alimenta os que ainda serão inventados.

Sem essa ventania fresca que é a nossa capacidade de acontecer no encontro com o outro, e também conosco através das nossas lembranças, suas calças não teriam aqueles microbolsos que parecem dispensáveis, mas que, na verdade, guardam toda sua fortuna.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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