Uma parada de ônibus, um BRT lotado, uma fila nos terminais integrados, na cozinha de casa, nos jardins dos condomínios, no consultório… muitas são as histórias que surgem, os diálogos que ouvimos e há sempre aquele mais falante e mais opinioso.

A linguagem do povo se faz entendida, não importa como se comporte o falante: se fala bonito ou se escorrega nos verbetes. Entretanto, mesmo que consigamos nos comunicar, seja qual for o modo como falamos, é importante aprender um pouco sobre o lugar certo de cada palavra… Mas não precisa ser complicado. Pode ser divertido. Vamos testar?

Episódio 4: O sabor das coisas…

Caminhando pelo centro da cidade, eis que surge entre o casal o seguinte diálogo…

-Vamos almoçar onde?

-Sei, lá… qualquer lugar, menos no chinês.

-Por que não no chinês? Eu gosto da comida de lá.

-Eu não gostei, não. O paladar de lá não me agradou. Muito ruim o paladar de lá.

-Então diga outro lugar…

-É, vamos ver… só não quero aquele paladar do chinês…

Da série: o lugar certo de cada palavra

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: de quem seria o paladar? De quem experimenta a comida ou da própria? Ou do lugar? Do chinês, dono do estabelecimento? Como saber qual o paladar que o agrada? Linguisticamente, a mensagem foi entendida. Mas ela ser referia ao sabor da comida. Afina, não é exatamente isto o que sentimos quando experimentamos uma comida ou bebida e testamos o nosso paladar?

Outras correções: “não sei”, ao invés de “sei lá”.

Episódio 5: Mais enrolada do que nunca…

Revoltada por ter levado falta, uma aluna chega à Coordenação Pedagógica da escola e esbraveja:

-Vocês não têm consciência, não? Por que levei falta, se eu estava no hospital acompanhando minha irmã? É meu direito, eu posso provar. Só não trago ela aqui, porque ela está lá, toda imobiliada, não sai da cama, não consegue andar. Vocês não têm coração?

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: uma vez apresentado o atestado médico, suas faltas foram retiradas, claro. Às vezes, a nossa língua nos prega peças e nos deixa imobilizados, de fato. E como uma mobília, é só uma questão de colocá-la no lugar mais adequado, concordam?

Outras correções: “…não a trago aqui”, ao invés de “…não trago ela aqui”.

Episódio 6: O medo de agulhas…

Estava eu no laboratório, encaminhando o agendamento para uma punção tireoidiana, toda trabalhada no pavor das agulhas, quando travo o seguinte diálogo com a simpática atendente:

-Poxa, tremo só de pensar nesta intervenção com agulha. Será que dói?

-Nada, senhora, fique tranquila! Doutor Lucilo tem mãos defado. A senhora nem vai sentir!

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: imagino que, para ela, as fadas têm sexo, não são como os anjos: há fadas e fados. Se assim fosse, eu até poderia ficar tranquila, posto que as fadas não fazem mal… ao menos em nossa imaginação.

No caso do fado, geralmente carregado de notas tristes, dolorosas, não teria jeito: meu pavor de agulhas só aumentaria. Como a expressão, de fato, se referia às fadas, deu tudo certo. Doutor Lucilo, realmente, tem mãos leves, como se fossem de fadas.

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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