Do que escuto pelo caminho…

Uma parada de ônibus, um BRT lotado, uma fila nos terminais integrados, na cozinha de casa, nos jardins dos condomínios, no consultório… muitas são as histórias que surgem, os diálogos que ouvimos e há sempre aquele mais falante e mais opinioso.

A linguagem do povo se faz entendida, não importa como se comporte o falante: se fala bonito ou se escorrega nos verbetes. Entretanto, mesmo que consigamos nos comunicar, seja qual for o modo como falamos, é importante aprender um pouco sobre o lugar certo de cada palavra… Mas não precisa ser complicado. Pode ser divertido. Vamos testar?

Da série: o lugar certo de cada palavra

Episódio 7: O problema é o “defeito estufa”…

No coletivo de todos os dias, o velho, insuportável, mas inevitável, trânsito de sempre, um calor da moléstia e tal… Nada de novo, apenas o coletivo um tanto vazio para o habitual. Lá pelo meio da Avenida Caxangá, uma moça passa mal e desmaia. Logo surgem os “médicos” de plantão…

-Acode!

-Abana!

-Dá água a ela!

-‘Dana’ água no rosto!

-Oferece a cadeira!

-Segura ela!

-Cobrador, manda o motorista entrar aí no Barão!

E eis que surge uma enfermeira, que logo lhe confere o pulso, lhe passa água no rosto, tenta reanimá-la e, enfim, consegue fazer com ela se recupere.

E surgem as lições com o ocorrido… e com elas as pérolas do linguajar do nosso povo:

-É por isso que não é bom andar sozinho.

-Mas hoje todo mundo trabalha, não dá pra andar ’empareado’ com o outro.

-Ainda bem que o motorista num foi covarde e ‘ligeirou’, só parando nos ‘faróis’ vermelho.

-É, minha gente, é o calor. A gente bem. Tem que andar é com água na bolsa. É esse tal de ‘defeito estufa’ acabando com a gente…

Sempre tem um gaiato…

-Como é, dona Maria? Defeito estufa? Né efeito, não é?

-É defeito, esse menino, oxe! Né por isso que a natureza tá assim? Só pode ser defeito, né não?

E chegamos ao nosso destino em meio a risos… Ah, a moça ficou bem. O ocorrido serviu ao menos pra mostrar que as pessoas se preocupam ainda umas com as outras, que logo oferecem ajuda, se prontificam, se sensibilizam.

Da série: o lugar certo de cada palavra (parte II)

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: observamos o linguajar popular e o pronto entendimento do que se quis dizer, é verdade. Vejamos a expressão: “dana água rosto”! O verbo “danar” até existe na língua portuguesa, mas longe de ter o sentido que aqui se quis expressar.

E o que seria “entrar aí no Barão!”? É tão característico de determinada gente, que só mesmo nós de Recife e RMR saberíamos que se refere ao Hospital Barão de Lucena. De mais a mais, novos termos aparecem, como “ligeirou” (confesso nunca tê-lo escutado), “faróis” em vez de sinal vermelho (como se costuma dizer por aqui). O que mais chamou a atenção foi o “defeito estufa”.

O que seria o efeito estufa, senão um defeito na natureza, no entendimento popularesco, não é? Sabemos que a vida não está fácil para ninguém… imaginem para a estufa, que agora achou de dar defeito!

Outras correções: “passa água no rosto”, ao invés de “dana…”; “emparelhado”, ao invés de “empareado”; “não foi”, ao invés de “num foi”; “se apressou”, ao invés de “ligeirou”.

Episódio 8: Suor ou sino?

-Menina, que calor é esse?

-Num é, mulé. A gente veve tomando banho e num adianta.

-Oxe, a gente soa antes de sair do banheiro, já sai pingando, né, não?

-E então!

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: o calor anda mesmo insuportável por estas bandas. Talvez por isso nos leve a carregar nos equívocos linguísticos. Não sabemos exatamente qual o verbo usar. Ou será que teríamos nós descoberto a sonoridade para o suor?

Outras correções: “vive”, ao invés de “veve…”; “não”, ao invés de “num”; “sua”, ao invés de “soa”. Verbo suar: verter líquido pelos poros, transpirar. Verbo soar: emitir som.

Episódio 9: Da inadimplência à conveniência…

Enquanto aguardavam a aula, os alunos conversavam alegremente pelos corredores, quando…

-Rapaz, ontem uma senhora estava tentando sair do ônibus, descendo bem devagar, quando o motorista saiu e não prestou atenção. A pobre caiu, cortou o supercílio, e foi aquela agonia. Muito sangue, as pessoas tentando ajudar, porque ela estava sozinha…

-Mas o que fez o motorista?

-Nada. Ele ficou um tempo parado, as pessoas decidindo se desciam, se seguiam, esperando o que iria acontecer, mas depois de um tempo, ele acabou indo embora.

-Está errado. Tanto o motorista quanto o cobrador foram ‘inadimplentes’, porque é obrigação deles levar a vítima pra UPA…

Em outro corredor, os auxiliares de disciplina conversavam…

-Os alunos fazem muito barulho, né? E a gente fica doida atrás deles, parecem crianças.

-E olha que são pessoas se preparando para o mundo do trabalho!

-Outro dia mesmo encontrei um grupo lanchando dentro da sala. Rapaz, o pessoal sabe que não pode, mas não obedece. É preciso a gente ser chata. Cheguei pra eles e falei: – Meu amor, vocês não sabem que não podem comer aqui dentro? Tem uma sala de ‘conveniência’ só pra vocês e vocês ficam teimando…

Refletindo sobre o lugar certo de cada palavra: embora entendamos a intenção do emissor, a frase pode não gerar sentido se não aplicarmos bem a palavra. No diálogo dos alunos, ‘Negligentes’ seria o termo correto a ser empregado. No segundo caso, a palavra ‘Convivência’ tomaria assento.

Outras correções: “não é”, ao invés de “né”; “para”, ao invés de “pra”.

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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